quinta-feira, 30 de abril de 2026

ALIANÇA ABRAÂMICA

 

Após a queda, Deus, em sua infinita graça e misericórdia, revela o pacto da graça, no qual promete salvação pelo descendente da mulher. A fim de fornecer condições à realização da redenção, uma aliança é estabelecida com Noé (SCHREINER, 2021, p.49) para a preservação da criação, e o próprio Noé é salvo do dilúvio, preservando-se assim um remanescente fiel que culminaria em Cristo (GUALBERTO, 2020, p.109). Na sequência desse desenvolvimento progressivo, Deus revela etapa ulterior de seu plano gracioso por meio da aliança que estabelece com Abraão[1].

As transações com Abraão seguem o curso progressivo da revelação: as promessas não são dadas de uma única vez, mas gradualmente, em diferentes momentos, até sua consolidação. O pacto inicia-se em Gênesis 12, é confirmado no capítulo 15 e ampliado em Gênesis 17 (RENIHAN, 2021. Não paginado).

Tal como ocorre na narrativa de Noé, esse desenvolvimento não está desconectado do plano redentivo. Nehemiah Coxe afirma que as transações federais de Deus com o patriarca constituem “o passo seguinte na revelação da graça de Deus aos homens” (apud COXE; OWEN, 2021, p.125)[2].

Na aliança anterior, Deus prometeu preservar a criação, garantindo as condições necessárias para a realização da redenção. Contudo, o problema do pecado permaneceu. À medida que a narrativa progride, impõe-se a questão acerca da solução para a condição humana. A história de Abraão apresenta-se como resposta: a solução não procede do homem, mas da intervenção soberana de Deus. Quando todas as circunstâncias parecem desfavoráveis à promessa inicial, Deus chama Abraão de um contexto idólatra para, por meio de sua descendência, cumprir o que havia sido anunciado em Gênesis (3.15) (SCHREINER, 2021, p.49).

A história é resumida assim: Deus se revela e chama a Abraão para fora de seu próprio país, promete lhe mostrar uma terra, fazer dele uma grande nação e abençoar todas as famílias da terra através dele (Gn 12.1-3). O patriarca abandona tudo e faz como Deus lhe ordena (v.4). Ao entrar em Canaã o Senhor aparece novamente, completa a promessa e lhe fala expressamente sobre a terra e sua descendência (Gn 12.6-7), o que é confirmado posteriormente quando volta a Canaã, após passar um tempo no Egito e se distanciar de seu sobrinho Ló (Gn 13.14-17).

Em Gênesis (15.1-7) as promessas são renovadas e esclarecidas, “aquele que será gerado por você, esse será o seu herdeiro”. Abraão crê nas Palavras do Senhor e isso lhe é atribuído para justiça.

Na sequência, ao indagar como saberia que herdaria a terra, Abraão recebe um sinal. Os animais são divididos, e, em meio às trevas, um “fogareiro fumegante e uma tocha de fogo” passam entre as partes (Gn 15.8-17).

Palmer Robertson (2011, p. 108, 109) explica esse evento. Diante da pergunta de Abraão uma garantia é oferecida[3]. Por meio de uma visão lhe comunica o que vai acontecer antes de cumprir a promessa. Na conclusão, Abraão testemunha um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passando entre os pedações dos animais, sinal solene do comprometimento divino de cumprir sua palavra sob juramento de automaldição[4].

Posteriormente, diante da demora no cumprimento, Abraão e Sara recorrem a Agar (Gn 16), de quem nasce Ismael. Contudo, em Gênesis (17.1-14), Deus volta a falar, amplia a aliança e estabelece a circuncisão como seu sinal (HORTON, 2010, p.114).

Do conjunto dessas revelações, extraem-se três promessas fundamentais: descendência, terra e bênção[5]. Esses elementos — semente, terra e bênção — estão intrinsecamente relacionados. A promessa da semente garante a multiplicação dos descendentes; a terra assegura o espaço de habitação dessa descendência; e a bênção universal indica que, por meio de Abraão e de sua posteridade, a graça divina alcançaria todas as nações. Conforme observa Alexander, os dois primeiros elementos devem ser compreendidos como subordinados ao propósito maior de Deus de abençoar todas as famílias da terra (ALEXANDER, 2010, p.72-74).

À luz do federalismo de Westminster, essa aliança possui caráter eminentemente gracioso e integra a única economia do pacto da graça, ainda que contenha aspectos típicos e provisórios relacionados à administração histórica do povo de Deus. Nesse contexto, o sinal da circuncisão não apenas marcava uma identidade étnica, mas funcionava como sinal pactual de inclusão na comunidade visível, aspecto cuja extensão e implicações serão examinados posteriormente.

É precisamente nesse ponto que emerge a divergência com a tradição credobatista. Enquanto a teologia pactual clássica entende a aliança abraâmica como substancialmente contínua com a Nova Aliança, os batistas reformados sustentam que seus aspectos externos, especialmente aqueles ligados à descendência natural e à terra, indicam que se trata de uma aliança distinta, não idêntica à Nova Aliança em sua essência. Para esses, o sinal pactual na Nova Aliança deve ser aplicado exclusivamente àqueles que professam fé, ao passo que, enquanto a tradição pedobatista sustenta que a inclusão dos filhos se relaciona com a compreensão da continuidade estrutural do pacto da graça.

Por meio dessas transações, o patriarca foi levado a um relacionamento tanto com Deus quanto com a Igreja. Deus lhe concedeu favor e graça, por isso, ele foi chamado de amigo de Deus[6]. Embora existissem muitos homens de Deus naquele tempo, mesmo assim o Senhor o escolheu, por meio dele e de seu descendente, a benção de Sem chegaria aos gentios e o Messias viria o mundo (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).



[1]Esse pacto importantíssimo para o propósito deste trabalho, pois dará subsídios para a compreensão do batismo e da membresia da Igreja.

[2] A mesma compreensão é seguida por A.W. Pink (2015), ele comenta que o chamado do patriarca foi um passo importante na realização dos propósitos de Deus, pois até então, pouco se sabia sobre a pessoa do Libertador e de onde ele viria, contudo, agora com Abraão a promessa não somente é renovada, mas sua família e local são anunciados. O Messias viria da descendência de Abraão e a terra de Canaã seria o cenário de sua gloriosa missão.

[3]Em outras palavras, Deus confirma sua palavra mediante um ritual.

[4]Segundo Peter L. Gentry e Stephen J. Wellum “Faz parte da cerimônia de aliança um juramento em que as partes invocam sobre si a maldição de morte caso não sejam fiéis as promessas e ao relacionamento da aliança” (2021, p.116). Horton (2010, p.20-22) nota que os tratados do Império Hitita (1450-1180 a.C) são semelhantes àqueles encontrados na Bíblia. Além do tratado, havia também uma cerimônia pública que o selava, na qual suserano e vassalo passavam entre as metades dos animais mortos, como que dizendo que se deixassem de cumprir a aliança o mesmo deveria acontecer com eles.

[5]Todas essas coisas só poderiam acontecer por uma intervenção sobrenatural de Deus, vez que, tanto as condições morais quanto naturais eram obstáculos evidentes ao cumprimento das promessas divinas (GOLDSWORTHY, 2018, p.127). Samuel Renihan (2021, não paginado) nos lembra, que Deus cumpriu na história cada uma das promessas feitas com o patriarca: Deus deu a terra aos descendentes de Abraão (Josué 21:43-45), multiplicou os descendentes do patriarca (Lucas 1:68, 72-75) e por fim, lhe suscitou a posteridade prometida dos descendentes por meio do qual a benção universal chegaria aos gentios.

[6]Há também aspectos delas peculiares a pessoa de Abraão nesse pacto que não se aplicam a outros homens (apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).

A PROPAGAÇÃO DO POVO DE DEUS


 

Essa linhagem piedosa não estava destituída do conhecimento de Deus. Ainda que a revelação não estivesse formalmente registrada por escrito, o povo de Deus tinha acesso à sua vontade por meio de sua comunicação e preservação ao longo das gerações.

Nesse contexto, alguns descendentes de Sete foram levantados como instrumentos dessa transmissão. Enoque, por exemplo, exerceu função profética ao anunciar o juízo vindouro, enquanto Noé é descrito como pregador da justiça.

Segundo Duguid (2015):

 

No princípio, Deus criou Adão e Eva para serem uma comunidade de adoração: ele seria o Deus deles e eles seriam o seu povo. A queda, contudo, despedaçou a comunhão deles um com o outro, assim como com Deus; uma divisão que se aprofundou ainda mais na geração seguinte, quando Caim assassinou seu irmão. A trajetória para longe de Deus iniciada pela linhagem de Caim terminou com uma comunidade de adoração falsificada em Babel (Gênesis 11). Ao mesmo tempo, uma linhagem de verdadeiros adoradores fluiu de Sete até Abrão – Abraão –, de quem Deus prometeu fazer uma grande nação e por meio de quem prometeu abençoar todas as nações da terra (Gênesis 12.1-3).

 

Assim, verifica-se que, desde os primórdios, há uma comunidade identificável que vive sob a revelação de Deus, distinta do restante da humanidade. Ainda que em forma incipiente, essa comunidade pode ser compreendida como a Igreja em sua expressão histórica inicial, caracterizada pela fé, pela recepção da Palavra e pela esperança na promessa redentiva.

O testemunho da Epístola aos Hebreus confirma que, já no Antigo Testamento, havia um povo constituído sob a revelação divina. Deus falou aos “pais” pelos profetas (Hb 1.1), o que pressupõe uma comunidade destinatária da sua Palavra. Ademais, a galeria da fé em Hebreus 11 evidencia a continuidade de um povo que viveu pela fé na promessa, não como indivíduos isolados, mas como participantes de uma mesma realidade pactual ao longo da história.

Nesse mesmo sentido, o apóstolo Paulo afirma que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gl 3.6), estabelecendo-o como paradigma da justificação pela fé. Mais do que isso, declara que “a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou primeiro o evangelho a Abraão” (Gl 3.8). Tal afirmação demonstra que o conteúdo essencial da mensagem redentiva não se inaugura no Novo Testamento, mas já estava presente na economia veterotestamentária.

Alguns poderiam considerar o uso do termo “igreja” para os santos do Antigo Testamento um anacronismo. Mas será que o ensino global da revelação divina não permite afirmar a sua existência já naquele período? Com efeito, o próprio Novo Testamento emprega categorias eclesiológicas ao referir-se ao povo de Deus no período veterotestamentário. Em Atos 7.38, ao rememorar a história de Israel, afirma-se que Moisés esteve na “congregação no deserto”, recebendo palavras vivas para transmiti-las ao povo.

A própria inclusão dos gentios na economia da redenção reforça essa compreensão. Ao tratar do enxerto dos gentios, o apóstolo Paulo não descreve a formação de um novo povo, mas a incorporação destes à mesma oliveira, cuja raiz já estava estabelecida (Rm 11). Nesse mesmo contexto, afasta expressamente a ideia de rejeição definitiva ao afirmar: “Porventura, rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum!” (Rm 11.1), demonstrando que, ao longo da história, Deus sempre preservou para si um remanescente fiel, “segundo a eleição da graça” (Rm 11.5).

Desse modo, a realidade eclesiológica não se inaugura no Novo Testamento, mas encontra suas raízes na própria constituição histórica do povo de Deus, o que confirma, uma vez mais, o caráter corporativo, contínuo e pactual dessa comunidade desde os seus primórdios.

 

 

 

AS DUAS DESCENDÊNCIAS

 

Da leitura de Gênesis, verifica-se o progressivo estabelecimento de uma linhagem de pessoas agraciadas com o amor especial e eletivo de Deus, restando demarcada a existência de dois troncos no seio da raça humana (GOLDSWORTHY, 2018, p.117-120). De um lado, encontra-se a descendência ímpia; de outro, a semente da mulher, por meio da qual a promessa redentiva é preservada ao longo da história (Gn 4.11).

O comentarista da Bíblia de Estudo NAA, ao tratar desse ponto, destaca que o tema da descendência da mulher ganha contornos mais definidos a partir de Gênesis 4.25:

 

O tema da descendência da mulher inicia-se em Gênesis 4.25 como o nascimento de Sete; a partir daí, o restante do livro de Gênesis traça a linhagem dos descendentes de Sete observando que ela fatalmente desembocará em um rei por meio do qual todas as nações da terra serão abençoadas [...]. (NAA,2023, p.34)

 

 

Esse desenvolvimento narrativo não apenas confirma a centralidade da promessa, mas também evidencia a estrutura corporativa da revelação veterotestamentária, na medida em que a história redentiva é conduzida por meio de uma descendência específica, tratada como portadora das promessas divinas ao longo das gerações.

Após a morte de Abel, nasce Sete, que passa a ocupar o seu lugar na linhagem pactual e a encabeçar a linha por meio da qual Deus conduzirá o seu propósito redentivo. Tal distinção não é acidental, mas intencional. De Adão até Noé, observa-se uma linha contínua que se desenvolve a partir de Sete, em contraste com a linhagem de Caim (GOLDSWORTHY, 2018, p.116).

O ANÚNCIO DA GRAÇA EM GÊNESIS 3.15

 


Ali mesmo no Éden, o Senhor procurou o homem e revelou a sua graça. Na sentença pronunciada em Gênesis (3.15) contra a serpente, foi anunciada a bendita promessa de redenção e salvação dos pecadores[1]. A descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente, e o reino do diabo seria completamente derrotado e arruinado. Quando se consideram textos como Romanos (5.12–19) e 1 Coríntios (15.21–22), verifica-se que Cristo é o último Adão, aquele que concede justiça ao seu povo (SCHREINER, 2021, p.35), cumprindo perfeitamente as exigências do pacto de obras.

Essa promessa, comumente denominada protoevangelho, não constitui mera declaração isolada, mas o primeiro anúncio formal do pacto da graça na história. Ainda que apresentada de forma embrionária, já contém, em essência, todos os elementos fundamentais da redenção: um Mediador prometido, um conflito pactual entre duas descendências e a certeza da vitória final de Deus sobre o mal. Trata-se, portanto, do ponto inaugural da revelação redentiva, a partir do qual toda a história bíblica se desenvolve de maneira orgânica e progressiva.

O que em Gênesis 3.15 é apresentado de forma inicial será posteriormente ampliado nas alianças com Noé, Abraão, Moisés e Davi, até alcançar sua plena manifestação em Cristo. Não há, portanto, múltiplos planos redentivos, mas um único propósito divino que se desdobra historicamente. A unidade do pacto da graça, conforme sustentada pela teologia de Westminster, encontra aqui seu ponto de partida.

A Confissão de Fé de Westminster reconhece que, tendo o homem se tornado incapaz de vida pelo pacto de obras, Deus dignou-se estabelecer um segundo pacto, no qual oferece livremente aos pecadores vida e salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles fé e prometendo o Espírito Santo para torná-los capazes de crer (CFW, cap. 7.3). Ademais, afirma que aprouve a Deus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus como Mediador, dando-lhe um povo desde toda a eternidade para ser por ele redimido, chamado, justificado, santificado e glorificado (CFW, cap. 8.1). Declara ainda que o Senhor Jesus, ao assumir a natureza humana, sujeitou-se à lei e a cumpriu perfeitamente e, por sua obediência e sacrifício, satisfez plenamente à justiça divina, adquirindo para os eleitos reconciliação e vida eterna (CFW, cap. 8.4–5).

No mesmo sentido, a Confissão de Fé Escocesa afirma que, após a queda, Deus procurou o homem, convenceu-o do pecado e lhe fez a promessa gratuita de que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente, sendo essa promessa progressivamente revelada e firmemente abraçada pelos fiéis ao longo de toda a história redentiva, desde Adão até a vinda de Cristo. Acrescenta ainda que Deus preservou, instruiu e governou a sua Igreja em todas as épocas, conduzindo-a até o cumprimento dessa promessa na encarnação do Messias[2].

É precisamente nesse contexto de promessa progressivamente revelada que se deve compreender a forma pela qual Deus passa a se relacionar com os eleitos ao longo da história. Com a promessa de salvação pelo descendente da mulher, os homens escolhidos foram trazidos à administração do pacto da graça. Antes, estavam sob a exigência de obediência perfeita no pacto de obras; porém, após a queda, a relação e aceitação diante de Deus passaram a se dar exclusivamente por meio de Cristo. Desde aquele momento, Deus já havia separado um povo para si (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p.107).

Essa separação, anunciada de forma inaugural em Gênesis 3.15, passa a se manifestar concretamente na história por meio da distinção entre duas linhagens.



[1]A revelação da promessa de Gênesis 3.15 vai crescendo progressivamente. A Confissão de 1689 (2020, p.29) declara que o evangelho foi revelado, primeiramente, na promessa de salvação pela descendência da mulher e depois por etapas sucessivas até que a plena revelação foi completada no NT. Hércules Collins (2020, p.29) em seu catecismo assegura que o santo Evangelho foi revelado pelo próprio Deus no Paraíso; depois, proclamado pelos santos patriarcas e profetas, e prefigurado pelos sacrifícios e outras cerimônias da Lei. E, finalmente, cumprido por meio de Jesus Cristo, o Filho amado.

[2] CONFISSÃO DE FÉ ESCOCESA. Confissão de fé escocesa. Disponível em: https://www.monergismo.com/textos/credos/confissao_escocesa.htm . Acesso em: 15 abr. 2026. caps. 4–5.

O PACTO ATEMPORAL


A solução para o pecado foi decretada na eternidade. O apóstolo Paulo, em 2 Timóteo (1.9), afirma que a salvação é resultado da “determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”. Em Tito (1.2), declara que a vida eterna foi prometida “antes dos tempos eternos” (RENIHAN, 2021, não paginado).

A teologia reformada reconhece que esse propósito redentivo está enraizado no decreto eterno de Deus. A Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus, desde toda a eternidade, ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece, e que Cristo foi designado como Mediador do pacto da graça para executar a redenção dos eleitos.

Nesse contexto, muitos teólogos reformados identificam um acordo intratrinitário, comumente denominado pacto da redenção, no qual o Pai designa o Filho para realizar a obra redentiva, e o Filho se oferece voluntariamente para cumpri-la, sendo-lhe prometida uma recompensa correspondente. Ainda que essa formulação não seja desenvolvida de modo técnico na Confissão, ela é considerada uma inferência legítima a partir do conjunto do ensino bíblico sobre a obra de Cristo.

Tal estrutura encontra sólido fundamento no Evangelho de João, no qual se evidencia, de maneira recorrente, a relação entre envio, missão e cumprimento da vontade do Pai pelo Filho. Em João 4.34 (NAA), Cristo declara: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”, indicando a existência de uma obra previamente determinada. No mesmo sentido, afirma: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6.38, NAA).

A dimensão pactual dessa missão torna-se ainda mais evidente quando o próprio Cristo explicita a extensão e o objeto dessa obra. Em João 6.39 (NAA), declara: “E a vontade de quem me enviou é esta: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia”. Aqui se observa não apenas o envio, mas também a doação de um povo ao Filho, cuja redenção lhe é confiada.

Essa mesma ideia é reiterada em João 10.14–15 (NAA): “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas”. A entrega voluntária da vida evidencia a natureza intencional e pactuada da obra redentiva. Tal voluntariedade é explicitada de forma ainda mais clara em João 10.17–18 (NAA): “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou”.

O ápice dessa revelação encontra-se na oração sacerdotal de Cristo, em João 17, onde a linguagem pactual se torna ainda mais explícita. Cristo afirma ter recebido autoridade sobre toda carne “a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (João 17.2, NAA). Mais adiante, declara: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer” (João 17.4, NAA), evidenciando o cumprimento de uma missão previamente estabelecida. A referência reiterada àqueles que o Pai “lhe deu” (João 17.6, 9, 24) reforça a ideia de um povo entregue ao Filho no âmbito desse desígnio eterno.

A participação do Espírito Santo, por sua vez, é igualmente delineada no mesmo Evangelho, evidenciando sua atuação na aplicação da redenção. Em João 14.16–17 (NAA), Cristo promete: “Eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre com vocês, o Espírito da verdade”. O Espírito é apresentado como aquele que habita no povo de Deus, garantindo a eficácia da obra redentiva. Em João 16.13–14 (NAA), afirma-se que “quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará a toda a verdade [...] ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e lhes há de anunciar”. Observa-se, assim, que o Espírito não atua de forma independente, mas aplica e comunica aquilo que procede do Filho, no cumprimento do desígnio do Pai.

Ademais, o Espírito é aquele que opera a regeneração, condição indispensável para a participação nos benefícios do pacto. Em João 3.5–6 (NAA), Cristo declara: “Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”. Dessa forma, a entrada no reino e a participação na salvação decretada eternamente dependem da atuação eficaz do Espírito Santo.

Dessa forma, o testemunho joanino corrobora a leitura reformada segundo a qual a obra da redenção envolve a atuação harmônica das três pessoas da Trindade: o Pai que planeja e envia, o Filho que executa e cumpre, e o Espírito que aplica e efetiva. O envio do Filho, sua obediência voluntária, a doação de um povo e a aplicação dessa obra pelo Espírito evidenciam, em linguagem bíblica, aquilo que a teologia sistemática descreve como pacto da redenção.

ALIANÇA DA GRAÇA


Embora a rebelião da humanidade tenha trazido juízo, Deus preservou a ordem no universo ao mesmo tempo em que começou a revelar o seu propósito de suplantar os efeitos da queda (GOLDSWORTHY, 2018, p. 115).

Esse propósito não foi um plano “B” porque o plano “A” falhou. Como disse John Piper:

 

Deus não entrou em cena no jardim do Éden e disse: “O que vocês fizeram? Eu realmente não sabia que isso aconteceria. Eu realmente não tinha planos para o meu Filho morrer por pecadores assim. Agora vocês arruinaram tudo”. [Pelo contrário] A Bíblia diz que o Filho foi conhecido e morto antes da fundação do mundo (1 Pe 1.20; Ap 13.8). A Bíblia diz que esse [Adão] é um tipo contra o qual Cristo será grandemente glorificado (Rm 5.14). E por esse motivo, esse tipo estava no plano. (PIPER, 2009)[1]

 

Os reformados afirmam que Deus decretou todas as coisas na eternidade, inclusive a queda, não como autor do pecado, mas ordenando-a de tal modo que a liberdade e responsabilidade da criatura permanecem íntegras. Deus decidiu permitir a queda e incluí-la em seu plano sábio e santo, com o propósito de manifestar a sua justiça e a riqueza da sua graça.

Nesse sentido, não se afirma que o pecado era necessário em si mesmo, mas que Deus, em sua sabedoria, ordenou a história de tal forma que a redenção em Cristo se tornasse a mais plena revelação de sua glória. Como bem afirmou John Piper, o primeiro Adão aparece como tipo daquele que havia de vir.



[1] https://voltemosaoevangelho.com/blog/2009/04/john-piper-deus-nao-foi-pego-de-surpresa-por-adao/

quarta-feira, 29 de abril de 2026

ALIANÇA DA CRIAÇÃO - PARTE 3

 

A situação do homem depois da queda

 

A condição original do homem era de liberdade e capacidade moral para obedecer. Contudo, sendo criatura mutável, Adão, diante da tentação, decidiu violar o pacto estabelecido por Deus.  A transgressão do mandamento específico constitui a quebra formal da aliança. Por meio desse ato, o pecado entrou no mundo e, com ele, todas as suas consequências. A partir desse momento, toda a humanidade passa a nascer em estado de pecado, sob a culpa de Adão e sob a corrupção da natureza. O pacto de obras permanece como exigência, mas já não oferece possibilidade de vida, apenas condenação. O homem, que antes vivia em comunhão com Deus, passa a experimentar alienação. Sua condição agora é de culpa e corrupção. A imagem de Deus é desfigurada, a mente obscurecida, as afeições desordenadas e a vontade inclinada ao mal. Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.94–98) descreve esse estado como de completa impotência espiritual. O homem não apenas peca, mas está sob o domínio do pecado, incapaz de restaurar-se por si mesmo[1].

Berkhof (2009, p.200) esclarece que a morte resultante da queda não implica aniquilação, mas separação de Deus, fonte da vida. A morte espiritual ocorre imediatamente, enquanto a morte física passa a operar progressivamente.

A condição do homem após a queda é igualmente descrita com precisão pela Confissão de Fé de Westminster. Afirma-se que, “tendo-se o homem tornado, por sua queda, incapaz de vida por meio desse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado pacto da graça” (CFW, cap. 7.3)[2].

Essa declaração é de suma importância, pois evidencia que o pacto de obras não foi abolido em sua exigência, mas tornou-se incapaz de conferir vida ao homem caído. A exigência de obediência permanece, porém sem qualquer possibilidade de cumprimento por parte do homem em seu estado de corrupção.

Diante da incapacidade absoluta do homem após a queda, surge uma questão teológica central: quem, então, cumpre as exigências do pacto de obras?

A resposta bíblica é clara. Aquilo que Adão, como primeiro cabeça federal, deixou de cumprir, é perfeitamente realizado por Cristo, o último Adão. O apóstolo Paulo estabelece esse paralelo de forma explícita em Romanos 5.18–19 (NAA): “assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”.

Do mesmo modo, em 1 Coríntios 15.22 (NAA), afirma-se: “porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo”. Esses textos demonstram que Cristo atua como cabeça representativa de um novo povo, cumprindo aquilo que era exigido no pacto original.

A Confissão de Fé de Westminster desenvolve essa mesma estrutura ao afirmar que o Senhor Jesus, como Mediador, “nasceu sob a lei, e a cumpriu perfeitamente” (CFW, cap. 8, §4). Essa afirmação é decisiva: Cristo não apenas sofre a penalidade do pacto violado (obediência passiva), mas também cumpre integralmente suas exigências (obediência ativa).

Além disso, a Confissão declara que, por sua obediência e sacrifício, Cristo “satisfez plenamente à justiça de seu Pai e adquiriu, não só a reconciliação, mas também uma herança eterna no reino dos céus para todos aqueles que o Pai lhe deu” (CFW, cap. 8, §5).

Desse modo, fica evidente que o pacto de obras não é simplesmente ignorado ou revogado no plano redentivo. Ao contrário, suas exigências são plenamente satisfeitas em Cristo. Ele cumpre a condição de perfeita obediência e suporta a sanção da desobediência, realizando, assim, tudo aquilo que o homem caído era incapaz de fazer.

Portanto, a exigência do pacto de obras permanece em vigor, mas, após a queda, deixou de ser um caminho possível de vida para o homem. Sua função, nesse estado, é revelar o pecado e estabelecer a justa condenação do transgressor.

Diante disso, a Escritura apresenta Cristo como o segundo Adão, aquele que, como cabeça representativa de um novo povo, cumpre perfeitamente todas as exigências originalmente impostas ao homem. Sua obediência não se limita à satisfação da penalidade do pecado, mas inclui o cumprimento integral da justiça requerida por Deus.

A Confissão de Fé de Westminster expressa essa realidade ao afirmar que o Senhor Jesus, como Mediador, “nasceu sob a lei, e a cumpriu perfeitamente” (CFW, cap. 8, §4), e que, por sua obediência e sacrifício, “satisfez plenamente à justiça de seu Pai e adquiriu [...] uma herança eterna” para o seu povo (CFW, cap. 8, §5).

Desse modo, o pacto de obras não é abolido no plano da redenção, mas plenamente cumprido em Cristo. Aquilo que era exigido do homem é realizado por Ele, e aquilo que era devido ao homem é por Ele suportado.

Conclui-se, assim, que a vida prometida no pacto de obras é concedida, não por meio da obediência humana, mas mediante a união com Cristo pela fé. É nele, e somente nele, que a justiça é cumprida, a condenação removida e a vida, originalmente prometida, finalmente alcançada.

 



[1]O estado do homem depois desse fato se tornou deplorável. A confissão de fé de 1689 diz que com a queda, o pacto de obras quebrado tornou-se inútil para conduzir a vida (2019, p.79). Contudo, “A mesma lei que primeiramente foi inscrita no coração do homem, continuou a ser uma regra perfeita de justiça após a queda” (2019, p.76). Denault (2018, p.62- 64) advoga que os homens permanecem “sob a obrigação de obedecer a Deus por causa desse pacto”. Ele é o fundamento da justiça retributiva de Deus, que anuncia que o salário do pecado é a morte e promete a vida em caso de obediência, embora o homem em seu estado atual já não tenha acesso as bênçãos dele através de suas obras.

[2] CFW, VII.3.

ALIANÇA DA CRIAÇÃO - PARTE 2

 

A situação do homem antes da queda

 

É certo que o termo “aliança” não aparece expressamente nos primeiros capítulos da Escritura. Todavia, a ausência do vocábulo não constitui argumento suficiente para negar a realidade pactual anterior a Gênesis 6.18. Pode-se falar legitimamente de pacto mesmo sem o emprego formal do termo, assim como é possível reconhecer a realeza de Yahweh sem a utilização explícita da palavra “rei” (GENTRY; WELLUM, 2021, p.73).

Fenômeno semelhante ocorre em 2 Samuel 7, em que a promessa feita a Davi não é inicialmente denominada aliança, embora posteriormente seja assim reconhecida (Sl 89.3, 28, 34, 39; Sl 132.12; Jr 33.21).

De todo modo, há elementos textuais suficientes que indicam a existência de uma aliança com Adão. Em Oséias 6.7, por exemplo, afirma-se que Israel transgrediu a aliança à semelhança de Adão. Além disso, o próprio relato de Gênesis apresenta os componentes essenciais de uma estrutura pactual: partes (Deus e o homem), estipulação (a proibição de comer da árvore – Gn 2.17), sanção (a morte) e uma promessa implícita de vida mediante obediência. Os textos de Romanos 5.12–19[1]  e 1 Coríntios 15.21–22 reforçam essa compreensão ao apresentarem Adão como cabeça representativa da humanidade, em paralelo com Cristo. Trata-se, portanto, de uma estrutura inequivocamente pactual.

Ademais, o uso do verbo “estabelecer” na aliança com Noé sugere não uma inauguração absoluta, mas a continuidade ou renovação de um arranjo pactual prévio (SCHREINER, 2021, p.24–28).

A narrativa de Gênesis inicia-se com a afirmação da existência de um Deus Criador, que ordena todas as coisas com sabedoria. O homem é criado de modo distinto das demais criaturas, dotado de racionalidade e de retidão original.

Segundo Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p. 82), essa retidão consistia na perfeita conformidade da natureza humana à lei divina, sem qualquer inclinação contrária à vontade de Deus. Tal condição não apenas capacitava o homem à obediência, como também o colocava em verdadeira comunhão com o Criador.

Deus impõe ao homem mandamentos que devem ser integralmente observados. Esses mandamentos podem ser compreendidos em dois níveis: um geral e outro específico.

Palmer Robertson (2011, p. 61, 73–74) identifica, de um lado, deveres gerais — como trabalho, casamento, domínio e observância do sábado e, de outro, um preceito positivo específico: a proibição de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este mandamento específico funcionava como ponto focal da obediência. Não se tratava de mera restrição alimentar, mas de um teste quanto à disposição do homem de submeter-se à autoridade divina. A obediência ou desobediência nesse ponto teria implicações diretas sobre sua relação com Deus[2]. Os aspectos gerais da responsabilidade humana, portanto, encontram-se concentrados e representados nesse preceito específico.

Por essa razão, Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p. 83–84) dedica especial atenção a esse elemento focal. Tal teste também é descrito por alguns estudiosos como um período probatório, por ter ocorrido em um intervalo relativamente curto: entre o recebimento do mandamento e a sua violação por Adão (VOS, 2007, p. 84).

Schreiner aprofunda essa análise ao tratar das responsabilidades de Adão, inclusive em relação à sua esposa:

 

Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus para governarem o mundo como servos de Deus e seus filhos. Também há evidências de que eles deveriam atuar como sacerdotes-reis. [...]O homem e a mulher, no entanto, não deveriam exercer seu governo sacerdotal de forma autônoma. Eles sempre estariam sujeitos à vontade Deus. O Senhor derramou sua bondade sobre eles, colocando-os num jardim edílico com árvores verdejantes pelas quais eles eram alimentados, e o homem e a mulher deveriam demonstrar sua submissão ao senhorio de Deus, recusando-se a comer da “arvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.17). (SCHREINER, 2021, p.31-32).

 

Schreiner observa que Adão e Eva foram constituídos como vice-regentes de Deus, exercendo domínio sob autoridade divina. Sua vocação incluía elementos reais e sacerdotais, mas sempre subordinados à vontade do Criador. A esse mandamento, Deus acrescenta uma sanção explícita: “certamente morrerás” (Gn 2.17). A ameaça não deixa margem para dúvida quanto à seriedade da aliança. Contudo, também se pressupõe uma promessa: a vida em caso de obediência.

Nesse ponto, a tradição reformada identifica uma promessa implícita de vida eterna. A Confissão de Fé de Westminster afirma que “o primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras, no qual a vida foi prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7, §2).

Embora a Confissão não desenvolva extensivamente a natureza dessa vida, a teologia reformada, a partir desse enunciado, compreende que não se tratava de mera continuação da existência natural, mas de uma vida confirmada e superior, vinculada ao cumprimento das exigências pactuais.

Segundo Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.83, 86-89) a árvore da vida foi instituída como um sinal e garantia da vida eterna (Ap 2.7) a Adão. Isso é confirmado pela maneira como o próprio Deus lida com Adão em relação a árvore após a queda impedindo-o de ter acesso a árvore da vida para receber o benefício. Embora criado reto, Adão poderia ter experimentado maior felicidade do que aquele provado imediatamente ao ser criado. Certamente que essa recompensa não implicava apenas em permanecer no estado que estava, mas que Adão alcançaria algo que ainda não tinha, viver eternamente[3].

Berkhof sustenta que a vida prometida não consistia meramente na continuação da existência natural, mas na elevação do homem a um estado de vida confirmada, irrevogável e gloriosa:

 

A clara implicação do castigo anunciado é que, em caso de obediência, a morte não entraria no mundo, e isto só pode significar que a vida teria continuidade. Tem se objetado que isto significaria apenas a continuidade da vida natural de Adão, e não daquilo que a escritura chama de vida eterna. Mas a ideia bíblica de vida é vida em comunhão com Deus, e esta é a vida que Adão tinha, embora no caso dele ainda podia ser perdida. Se Adão se saísse bem na prova, esta vida não somente seria mantida, mas também deixaria de estar sujeita a ser perdida e, portanto, seria elevada a um plano mais alto. [...] Certamente a promessa implícita não significa que, em caso de obediência, Adão teria permissão de viver da maneira usual, isto é, de continuar tendo a vida natural comum, pois essa vida já era sua em virtude da sua criação, e, portanto, não poderia ser apresentada como recompensa pela obediência. É evidente que a promessa implícita era da vida elevada ao seu supremo desenvolvimento de perene bem-aventurança e glória. (BERKHOF, 2009, p.197, 199).

 

 

J. Geerhardus Vos (2007, p.84), no mesmo sentido, diz que se Adão e Eva tivessem obedecido “lhes seria dado o direito de comer do fruto da árvore da vida, quando receberiam a vida eterna e jamais lhes seria possível cometer pecado ou morrer”. Ao mostrar o mandamento, a penalidade e recompensa, Nehemiah Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.82-85) deseja apontar os elementos de uma aliança.

Para John Owen (apud COXE; OWEN, 2021, p.263, 264) a ordem de Deus para Adão continha a natureza expressa de uma aliança “porque tratava-se de um acordo de Deus e do homem concernente a obediência e desobediência, recompensas e punições. Onde há uma lei concernente a essas coisas, e um acordo sobre ela por todas as partes envolvidas, então existe uma aliança formal”. O pacto da criação feito com Adão vinculava todos os homens, se Adão permanecesse no pacto pela obediência, todas as pessoas permaneceriam com ele, mas se pecasse, todos cairiam com ele (Rm 5.19).

A partir dessa estrutura representativa, impõe-se reconhecer que a aliança estabelecida com Adão não se limita à sua pessoa individualmente considerada, mas alcança, desde a origem, a sua descendência. Tal conclusão não decorre de construção teológica posterior, mas encontra fundamento na própria ordem criacional. Conforme se observa em Gênesis 1.28, Deus ordena ao homem que se multiplique e encha a terra, estabelecendo uma dinâmica de continuidade geracional que integra o propósito divino para a humanidade.

Nesse contexto, a família não constitui elemento acidental, mas parte integrante da estrutura pela qual a vida humana se desenvolve diante de Deus. A instituição do vínculo conjugal em Gênesis 2.24 evidencia que a propagação da descendência ocorre dentro de uma ordem estabelecida pelo próprio Criador, servindo como meio ordinário de continuidade da humanidade.

Desse modo, a posteridade de Adão deve ser compreendida como incluída na economia pactual desde o princípio. A promessa de vida, bem como a ameaça de morte, não diz respeito exclusivamente ao primeiro homem, mas a todos aqueles que nele estão compreendidos. A representação exercida por Adão, portanto, pressupõe a inclusão de sua descendência, evidenciando que a relação de Deus com o homem, desde a criação, se dá em termos corporativos, e não meramente individuais.

Ainda nesse contexto, deve-se considerar que a ordem conferida ao homem em Gênesis 1.28 não se restringe à multiplicação, mas abrange aquilo que a teologia reformada denomina de mandato cultural. Ao homem é atribuída a responsabilidade de frutificar, exercer domínio e administrar a criação, atuando como vice-regente sob a autoridade de Deus.

Tal mandato não possui caráter autônomo, mas encontra-se inserido na própria estrutura pactual estabelecida na criação. O trabalho, o domínio sobre a terra e a constituição da família integram uma única ordem, pela qual o homem deveria viver em conformidade com a vontade divina. Nesse sentido, a família não apenas viabiliza a continuidade da descendência, mas também constitui o ambiente ordinário em que esse mandato é desenvolvido ao longo das gerações.

 

Tal princípio assume relevância decisiva para a compreensão da queda e de seus efeitos, uma vez que a corrupção e a culpa não são fenômenos isolados, mas atingem a totalidade da raça humana em razão da unidade representativa estabelecida no pacto da criação.

James P. Boyce corrobora que “no pacto, sob o qual ele pecou, ele agiu não apenas como um indivíduo, o único da sua espécie, ou um homem isolado de todos os outros de sua espécie, mas, como o líder da raça, tanto por sua descendência como por si mesmo.” (BOYCE, 2020, p. 311).

Nesse ponto, a formulação confessional clássica confirma de maneira precisa a estrutura aqui delineada. A Confissão de Fé de Westminster[4] estabelece que, embora haja uma distância infinita entre Deus e a criatura, “eles nunca poderiam fruir dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus, a qual lhe agradou expressar por meio de um pacto” (CFW, cap. 7.1).

No mesmo sentido, afirma expressamente que “o primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7.2).

Dessa forma, a tradição reformada não apenas reconhece a existência de uma aliança na criação, mas também a qualifica de modo técnico, evidenciando seus elementos essenciais: condição, promessa e sanção. Tal formulação confessional reforça que a vida prometida a Adão não era meramente natural, mas dependia da perseverança em perfeita obediência.



[1]  Berkhof (2009, p.198) argumenta que o paralelo traçado por Paulo em Romanos 5.12-21, no contexto da doutrina da justificação, só pode ser explicado com base no pressuposto de que a semelhança de Cristo, o primeiro Adão era chefe de uma aliança.

[2] Como bem-dito por Calvino nas Institutas: “a proibição sob a árvore do bem e do mal foi um exame da obediência, para que Adão provasse estar livremente submetido à autoridade de Deus” (2008, p.228).

[3]Essa felicidade elevada embora condicionada era na verdade fruto da bondade deliberada e soberana de Deus, que não tinha qualquer obrigação de dar ao homem algum prêmio. O castigo era um débito, a recompensa não (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p. 88).

[4] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. A Confissão de Fé de Westminster. Igreja Presbiteriana do Brasil. Disponível em: https://www.ipb.org.br/content/Arquivos/A_Confissao_de_Fe_de_Westminster.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. (cap. 7, §§1–2).

ALIANÇA DA CRIAÇÃO - PARTE 1


Apesar da resistência de parte da teologia contemporânea quanto ao pacto estabelecido com Adão (HORTON, 2010, p. 65) [1], não há razão consistente para hesitação em afirmar a existência de uma verdadeira aliança de obras. Ao contrário, trata-se de elemento estruturante da teologia bíblica, cuja má compreensão compromete todo o desenvolvimento posterior da doutrina.

Nesse sentido, sustenta-se que o pacto de obras possui importância decisiva, de modo que aquele que não o compreende corretamente tende a se perder na interpretação das demais verdades reveladas. A sua correta apreensão fornece a base necessária para a compreensão tanto da queda quanto da redenção.

Na teologia da Confissão de Fé de Westminster, a relação entre o pacto de obras e a obra de Cristo é construída de forma implícita, a partir da articulação interna dos seus capítulos (cf. cap. VII, §§2–3; cap. VIII, §§4–5; cap. XI, §1; cap. XIX, §§1–2). Trata-se, portanto, de uma conclusão teológica necessária, extraída da coerência interna do sistema confessional.

A Confissão estabelece que Deus fez com Adão um pacto de obras, no qual a vida foi prometida sob a condição de obediência perfeita (cap. VII, §2; cap. XIX, §1). Com a queda, o homem tornou-se incapaz de alcançar essa vida por meio desse pacto, permanecendo sob sua exigência e condenação (cap. VII, §3).

É nesse contexto que se insere a obra de Cristo. Apresentado como Mediador do pacto da graça, Ele não apenas remove a culpa do pecado, mas também cumpre plenamente as exigências da lei e satisfaz a justiça divina (cap. VIII, §§4–5; cap. XI, §1), realizando aquilo que o homem, em estado caído, já não pode cumprir.

A exposição desse pacto pode ser organizada em três aspectos fundamentais: primeiramente, o estado do homem antes da queda; em seguida, o pecado e seus efeitos imediatos; e, por fim, a forma como Deus tratou o homem após a queda. Essa estrutura permite compreender, de forma ordenada, a lógica pactual que governa o início da história redentiva e prepara o terreno para o desenvolvimento das alianças subsequentes.



[1] Horton (2010, p.67) advoga que os primeiros defensores da teologia federal reconheciam claramente que as alianças de obras e graça surgiram de um compromisso anterior que tinham com a distinção entre lei e evangelho.

PACTOS HISTÓRICOS COMO ADMINISTRAÇÕES DO PACTO DE GRAÇA

 

A adequada compreensão da estrutura pactual das Escrituras exige o reconhecimento de que os diversos pactos históricos não constituem realidades autônomas ou independentes, mas se inserem organicamente no desenvolvimento de uma única economia redentiva. Nesse contexto, pode-se afirmar, com precisão, que os chamados pactos “menores” existem em função do pacto da graça, desde que tal afirmação seja corretamente qualificada à luz da teologia bíblica.

Com efeito, a partir da promessa inaugural registrada em Bíblia, estabelece-se o pacto da graça como eixo estruturante de toda a história da redenção. Não se trata de mera expectativa futura, mas de uma realidade pactual que passa a ser progressivamente administrada ao longo da revelação. Nesse sentido, os pactos subsequentes não introduzem novos caminhos de salvação, mas operam como instrumentos históricos de desenvolvimento, preservação e manifestação dessa única aliança graciosa.

O pacto celebrado com Noé, conforme Bíblia, cumpre função de preservação da ordem criada, garantindo as condições históricas para a execução do plano redentivo. O pacto abraâmico, por sua vez, estabelece a linhagem da promessa e explicita a dimensão pactual da fé, conforme se observa em Bíblia. Já o pacto mosaico organiza juridicamente o povo da aliança, desempenhando função pedagógica e tipológica, como reconhecido em Bíblia. Por fim, o pacto davídico projeta a esperança messiânica, apontando para o reinado definitivo do descendente prometido, conforme Bíblia.

Todavia, a correta formulação dessa unidade não autoriza a eliminação das distinções reais entre tais pactos. Cada administração possui características próprias, especialmente no que diz respeito ao pacto mosaico, marcado por elementos legais e tipológicos específicos, e ao pacto noético, cujo alcance transcende a esfera estritamente redentiva. Assim, não se deve afirmar que todos os pactos são idênticos em natureza, mas sim que todos se ordenam, direta ou indiretamente, ao cumprimento do pacto da graça.

Dessa forma, a síntese teológica adequada consiste em reconhecer que há uma unidade substancial na aliança da graça, acompanhada de uma diversidade administrativa em sua manifestação histórica. Qualquer leitura que isole os pactos ou os trate como sistemas independentes incorre em fragmentação indevida da revelação, comprometendo a compreensão da coerência interna da economia pactual.

OS CABEÇAS FEDERAIS DAS ALIANÇAS


Outro aspecto fundamental é o caráter representativo das alianças. Em regra, os pactos são estabelecidos com pessoas públicas, isto é, com representantes, e, por meio deles, com todos aqueles que representam. Em Romanos 5:12–21 (ARA), por exemplo, Adão é apresentado como cabeça federal de toda a humanidade, enquanto Cristo figura como representante da nova humanidade, composta pelos eleitos (MURRAY, 2003, p. 205).

Nesse ponto, a Confissão de Fé de Westminster é clara ao reconhecer, em sentido estrito, a representação federal propriamente dita nesses dois polos: Adão e Cristo. Em ambos os casos, há imputação direta; da culpa, no primeiro; da justiça, no segundo, o que os qualifica como cabeças federais em sentido técnico e rigoroso.

Coxe, porém, destaca que Deus, ao estabelecer seus pactos, frequentemente o faz por meio de cabeças representativas, de modo que os benefícios e responsabilidades da aliança se estendem aos que estão unidos a esses representantes. Tal princípio alcança sua expressão máxima em Cristo, cabeça da nova aliança, em quem todas as promessas são confirmadas e por meio de quem os participantes recebem vida, graça e capacitação para corresponder aos termos pactuais:

 

[...] quando Deus fez pactos, nos quais a humanidade em geral ou algum número seleto de homens em particular estavam envolvidos, agradou ao Senhor primeiro lidar ou transacionar com algumas pessoas públicas, cabeças ou representantes de todos os outros que estariam envolvidos neles. Assim o foi no pacto da criação que Deus fez com Adão em seu estado de retidão e com toda a humanidade nele. E o mesmo deve ser observado acerca do pacto noético como também acerca dos pactos feitos com Abraão, os crentes reivindicam as bênçãos do pacto de graça que foi feito com ele. E em consequência do relacionamento natural com Abraão, sua descendência segundo a carne reivindicava seus direitos e privilégios daquela aliança peculiar que primeiro foi feita com ele, como cabeça daquele povo separado. Mas, ainda mais eminentemente, é o Pacto da Graça, estabelecido em Cristo como o cabeça. Todas as suas promessas foram primeiramente dadas a ele, e nele são o sim e o amém. É pela união com ele que os cristãos obtêm a participação em uma Nova Aliança e dele recebem uma nova vida, graça e força para responder os fins da Nova Aliança. (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p.76, 77)

 

Todavia, no que concerne às alianças históricas, noética, abraâmica, mosaica e davídica, a linguagem de “cabeça federal” deve ser empregada com a devida cautela. Embora se observe nelas um princípio representativo, não se está diante de federalismo em sentido próprio, tal como ocorre em Adão e Cristo. Figuras como Noé, Abraão, Moisés e Davi atuam de forma subserviente, ou seja, como representantes históricos e mediadores das respectivas administrações pactuais, mas não como cabeças federais no sentido técnico de imputação direta de culpa ou justiça.

Assim, nessas alianças, a representação deve ser compreendida como: (i) histórica e administrativa, enquanto instrumento da execução do pacto na história; (ii) tipológica, na medida em que aponta para Cristo; e (iii) subordinada ao pacto da graça, cuja substância permanece una ao longo de suas diversas administrações.

Para concluir, importa destacar que a teologia reformada clássica, conforme sistematizada pela Confissão de Fé de Westminster, estrutura os pactos de modo fundamental a partir de duas grandes categorias: o pacto de obras, estabelecido com Adão antes da queda, e o pacto da graça, por meio do qual Deus provê a salvação aos eleitos em Cristo. Este último é administrado de diversas maneiras ao longo da história redentiva, abrangendo as alianças bíblicas, sem diversidade de substância.

O BATISMO AINDA FALA

 Muitos cristãos enxergam o batismo como uma lembrança distante. Foi um acontecimento importante, mas ficou no passado. Entretanto, a Escrit...