Após a queda, Deus, em sua
infinita graça e misericórdia, revela o pacto da graça, no qual promete
salvação pelo descendente da mulher. A fim de fornecer condições à realização
da redenção, uma aliança é estabelecida com Noé (SCHREINER, 2021, p.49) para a
preservação da criação, e o próprio Noé é salvo do dilúvio, preservando-se
assim um remanescente fiel que culminaria em Cristo (GUALBERTO, 2020, p.109).
Na sequência desse desenvolvimento progressivo, Deus revela etapa ulterior de
seu plano gracioso por meio da aliança que estabelece com Abraão[1].
As transações com Abraão seguem
o curso progressivo da revelação: as promessas não são dadas de uma única vez,
mas gradualmente, em diferentes momentos, até sua consolidação. O pacto
inicia-se em Gênesis 12, é confirmado no capítulo 15 e ampliado em Gênesis 17
(RENIHAN, 2021. Não paginado).
Tal como ocorre na narrativa de
Noé, esse desenvolvimento não está desconectado do plano redentivo. Nehemiah
Coxe afirma que as transações federais de Deus com o patriarca constituem “o
passo seguinte na revelação da graça de Deus aos homens” (apud COXE; OWEN,
2021, p.125)[2].
Na aliança anterior, Deus
prometeu preservar a criação, garantindo as condições necessárias para a
realização da redenção. Contudo, o problema do pecado permaneceu. À medida que
a narrativa progride, impõe-se a questão acerca da solução para a condição humana.
A história de Abraão apresenta-se como resposta: a solução não procede do
homem, mas da intervenção soberana de Deus. Quando todas as circunstâncias
parecem desfavoráveis à promessa inicial, Deus chama Abraão de um contexto
idólatra para, por meio de sua descendência, cumprir o que havia sido anunciado
em Gênesis (3.15) (SCHREINER, 2021, p.49).
A história é resumida assim: Deus
se revela e chama a Abraão para fora de seu próprio país, promete lhe mostrar
uma terra, fazer dele uma grande nação e abençoar todas as famílias da terra
através dele (Gn 12.1-3). O patriarca abandona tudo e faz como Deus lhe ordena
(v.4). Ao entrar em Canaã o Senhor aparece novamente, completa a promessa e lhe
fala expressamente sobre a terra e sua descendência (Gn 12.6-7), o que é
confirmado posteriormente quando volta a Canaã, após passar um tempo no Egito e
se distanciar de seu sobrinho Ló (Gn 13.14-17).
Em Gênesis (15.1-7) as promessas
são renovadas e esclarecidas, “aquele que será gerado por você, esse será o seu
herdeiro”. Abraão crê nas Palavras do Senhor e isso lhe é atribuído para
justiça.
Na sequência, ao indagar como
saberia que herdaria a terra, Abraão recebe um sinal. Os animais são divididos,
e, em meio às trevas, um “fogareiro fumegante e uma tocha de fogo” passam entre
as partes (Gn 15.8-17).
Palmer Robertson (2011, p. 108,
109) explica esse evento. Diante da pergunta de Abraão uma garantia é oferecida[3]. Por
meio de uma visão lhe comunica o que vai acontecer antes de cumprir a promessa.
Na conclusão, Abraão testemunha um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo
passando entre os pedações dos animais, sinal solene do comprometimento divino
de cumprir sua palavra sob juramento de automaldição[4].
Posteriormente, diante da demora
no cumprimento, Abraão e Sara recorrem a Agar (Gn 16), de quem nasce Ismael.
Contudo, em Gênesis (17.1-14), Deus volta a falar, amplia a aliança e
estabelece a circuncisão como seu sinal (HORTON, 2010, p.114).
Do conjunto dessas revelações,
extraem-se três promessas fundamentais: descendência, terra e bênção[5].
Esses elementos — semente, terra e bênção — estão intrinsecamente relacionados.
A promessa da semente garante a multiplicação dos descendentes; a terra
assegura o espaço de habitação dessa descendência; e a bênção universal indica
que, por meio de Abraão e de sua posteridade, a graça divina alcançaria todas
as nações. Conforme observa Alexander, os dois primeiros elementos devem ser
compreendidos como subordinados ao propósito maior de Deus de abençoar todas as
famílias da terra (ALEXANDER, 2010, p.72-74).
À luz do federalismo de
Westminster, essa aliança possui caráter eminentemente gracioso e integra a
única economia do pacto da graça, ainda que contenha aspectos típicos e
provisórios relacionados à administração histórica do povo de Deus. Nesse
contexto, o sinal da circuncisão não apenas marcava uma identidade étnica, mas funcionava
como sinal pactual de inclusão na comunidade visível, aspecto cuja extensão e
implicações serão examinados posteriormente.
É precisamente nesse ponto que
emerge a divergência com a tradição credobatista. Enquanto a teologia pactual
clássica entende a aliança abraâmica como substancialmente contínua com a Nova
Aliança, os batistas reformados sustentam que seus aspectos externos, especialmente
aqueles ligados à descendência natural e à terra, indicam que se trata de uma
aliança distinta, não idêntica à Nova Aliança em sua essência. Para esses, o
sinal pactual na Nova Aliança deve ser aplicado exclusivamente àqueles que
professam fé, ao passo que, enquanto a tradição pedobatista sustenta que a
inclusão dos filhos se relaciona com a compreensão da continuidade estrutural
do pacto da graça.
Por meio dessas transações, o
patriarca foi levado a um relacionamento tanto com Deus quanto com a Igreja. Deus
lhe concedeu favor e graça, por isso, ele foi chamado de amigo de Deus[6].
Embora existissem muitos homens de Deus naquele tempo, mesmo assim o Senhor o
escolheu, por meio dele e de seu descendente, a benção de Sem chegaria aos
gentios e o Messias viria o mundo (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).
[1]Esse pacto importantíssimo para o propósito deste
trabalho, pois dará subsídios para a compreensão do batismo e da membresia da
Igreja.
[2] A mesma compreensão é seguida por A.W. Pink (2015),
ele comenta que o chamado do patriarca foi um passo importante na realização
dos propósitos de Deus, pois até então, pouco se sabia sobre a pessoa do
Libertador e de onde ele viria, contudo, agora com Abraão a promessa não
somente é renovada, mas sua família e local são anunciados. O Messias viria da
descendência de Abraão e a terra de Canaã seria o cenário de sua gloriosa
missão.
[3]Em outras palavras, Deus confirma sua palavra mediante um
ritual.
[4]Segundo Peter L.
Gentry e Stephen J. Wellum “Faz parte da cerimônia de aliança um juramento em
que as partes invocam sobre si a maldição de morte caso não sejam fiéis as
promessas e ao relacionamento da aliança” (2021, p.116). Horton (2010, p.20-22)
nota que os tratados do Império Hitita (1450-1180 a.C) são semelhantes àqueles
encontrados na Bíblia. Além do tratado, havia também uma cerimônia pública que
o selava, na qual suserano e vassalo passavam entre as metades dos animais
mortos, como que dizendo que se deixassem de cumprir a aliança o mesmo deveria
acontecer com eles.
[5]Todas essas coisas só poderiam acontecer por uma
intervenção sobrenatural de Deus, vez que, tanto as condições morais quanto
naturais eram obstáculos evidentes ao cumprimento das promessas divinas
(GOLDSWORTHY, 2018, p.127). Samuel Renihan (2021, não paginado) nos lembra, que
Deus cumpriu na história cada uma das promessas feitas com o patriarca: Deus
deu a terra aos descendentes de Abraão (Josué 21:43-45), multiplicou os
descendentes do patriarca (Lucas 1:68, 72-75) e por fim, lhe suscitou a
posteridade prometida dos descendentes por meio do qual a benção universal
chegaria aos gentios.
[6]Há também
aspectos delas peculiares a pessoa de Abraão nesse pacto que não se aplicam a
outros homens (apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).
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