quinta-feira, 30 de abril de 2026

ALIANÇA ABRAÂMICA

 

Após a queda, Deus, em sua infinita graça e misericórdia, revela o pacto da graça, no qual promete salvação pelo descendente da mulher. A fim de fornecer condições à realização da redenção, uma aliança é estabelecida com Noé (SCHREINER, 2021, p.49) para a preservação da criação, e o próprio Noé é salvo do dilúvio, preservando-se assim um remanescente fiel que culminaria em Cristo (GUALBERTO, 2020, p.109). Na sequência desse desenvolvimento progressivo, Deus revela etapa ulterior de seu plano gracioso por meio da aliança que estabelece com Abraão[1].

As transações com Abraão seguem o curso progressivo da revelação: as promessas não são dadas de uma única vez, mas gradualmente, em diferentes momentos, até sua consolidação. O pacto inicia-se em Gênesis 12, é confirmado no capítulo 15 e ampliado em Gênesis 17 (RENIHAN, 2021. Não paginado).

Tal como ocorre na narrativa de Noé, esse desenvolvimento não está desconectado do plano redentivo. Nehemiah Coxe afirma que as transações federais de Deus com o patriarca constituem “o passo seguinte na revelação da graça de Deus aos homens” (apud COXE; OWEN, 2021, p.125)[2].

Na aliança anterior, Deus prometeu preservar a criação, garantindo as condições necessárias para a realização da redenção. Contudo, o problema do pecado permaneceu. À medida que a narrativa progride, impõe-se a questão acerca da solução para a condição humana. A história de Abraão apresenta-se como resposta: a solução não procede do homem, mas da intervenção soberana de Deus. Quando todas as circunstâncias parecem desfavoráveis à promessa inicial, Deus chama Abraão de um contexto idólatra para, por meio de sua descendência, cumprir o que havia sido anunciado em Gênesis (3.15) (SCHREINER, 2021, p.49).

A história é resumida assim: Deus se revela e chama a Abraão para fora de seu próprio país, promete lhe mostrar uma terra, fazer dele uma grande nação e abençoar todas as famílias da terra através dele (Gn 12.1-3). O patriarca abandona tudo e faz como Deus lhe ordena (v.4). Ao entrar em Canaã o Senhor aparece novamente, completa a promessa e lhe fala expressamente sobre a terra e sua descendência (Gn 12.6-7), o que é confirmado posteriormente quando volta a Canaã, após passar um tempo no Egito e se distanciar de seu sobrinho Ló (Gn 13.14-17).

Em Gênesis (15.1-7) as promessas são renovadas e esclarecidas, “aquele que será gerado por você, esse será o seu herdeiro”. Abraão crê nas Palavras do Senhor e isso lhe é atribuído para justiça.

Na sequência, ao indagar como saberia que herdaria a terra, Abraão recebe um sinal. Os animais são divididos, e, em meio às trevas, um “fogareiro fumegante e uma tocha de fogo” passam entre as partes (Gn 15.8-17).

Palmer Robertson (2011, p. 108, 109) explica esse evento. Diante da pergunta de Abraão uma garantia é oferecida[3]. Por meio de uma visão lhe comunica o que vai acontecer antes de cumprir a promessa. Na conclusão, Abraão testemunha um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passando entre os pedações dos animais, sinal solene do comprometimento divino de cumprir sua palavra sob juramento de automaldição[4].

Posteriormente, diante da demora no cumprimento, Abraão e Sara recorrem a Agar (Gn 16), de quem nasce Ismael. Contudo, em Gênesis (17.1-14), Deus volta a falar, amplia a aliança e estabelece a circuncisão como seu sinal (HORTON, 2010, p.114).

Do conjunto dessas revelações, extraem-se três promessas fundamentais: descendência, terra e bênção[5]. Esses elementos — semente, terra e bênção — estão intrinsecamente relacionados. A promessa da semente garante a multiplicação dos descendentes; a terra assegura o espaço de habitação dessa descendência; e a bênção universal indica que, por meio de Abraão e de sua posteridade, a graça divina alcançaria todas as nações. Conforme observa Alexander, os dois primeiros elementos devem ser compreendidos como subordinados ao propósito maior de Deus de abençoar todas as famílias da terra (ALEXANDER, 2010, p.72-74).

À luz do federalismo de Westminster, essa aliança possui caráter eminentemente gracioso e integra a única economia do pacto da graça, ainda que contenha aspectos típicos e provisórios relacionados à administração histórica do povo de Deus. Nesse contexto, o sinal da circuncisão não apenas marcava uma identidade étnica, mas funcionava como sinal pactual de inclusão na comunidade visível, aspecto cuja extensão e implicações serão examinados posteriormente.

É precisamente nesse ponto que emerge a divergência com a tradição credobatista. Enquanto a teologia pactual clássica entende a aliança abraâmica como substancialmente contínua com a Nova Aliança, os batistas reformados sustentam que seus aspectos externos, especialmente aqueles ligados à descendência natural e à terra, indicam que se trata de uma aliança distinta, não idêntica à Nova Aliança em sua essência. Para esses, o sinal pactual na Nova Aliança deve ser aplicado exclusivamente àqueles que professam fé, ao passo que, enquanto a tradição pedobatista sustenta que a inclusão dos filhos se relaciona com a compreensão da continuidade estrutural do pacto da graça.

Por meio dessas transações, o patriarca foi levado a um relacionamento tanto com Deus quanto com a Igreja. Deus lhe concedeu favor e graça, por isso, ele foi chamado de amigo de Deus[6]. Embora existissem muitos homens de Deus naquele tempo, mesmo assim o Senhor o escolheu, por meio dele e de seu descendente, a benção de Sem chegaria aos gentios e o Messias viria o mundo (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).



[1]Esse pacto importantíssimo para o propósito deste trabalho, pois dará subsídios para a compreensão do batismo e da membresia da Igreja.

[2] A mesma compreensão é seguida por A.W. Pink (2015), ele comenta que o chamado do patriarca foi um passo importante na realização dos propósitos de Deus, pois até então, pouco se sabia sobre a pessoa do Libertador e de onde ele viria, contudo, agora com Abraão a promessa não somente é renovada, mas sua família e local são anunciados. O Messias viria da descendência de Abraão e a terra de Canaã seria o cenário de sua gloriosa missão.

[3]Em outras palavras, Deus confirma sua palavra mediante um ritual.

[4]Segundo Peter L. Gentry e Stephen J. Wellum “Faz parte da cerimônia de aliança um juramento em que as partes invocam sobre si a maldição de morte caso não sejam fiéis as promessas e ao relacionamento da aliança” (2021, p.116). Horton (2010, p.20-22) nota que os tratados do Império Hitita (1450-1180 a.C) são semelhantes àqueles encontrados na Bíblia. Além do tratado, havia também uma cerimônia pública que o selava, na qual suserano e vassalo passavam entre as metades dos animais mortos, como que dizendo que se deixassem de cumprir a aliança o mesmo deveria acontecer com eles.

[5]Todas essas coisas só poderiam acontecer por uma intervenção sobrenatural de Deus, vez que, tanto as condições morais quanto naturais eram obstáculos evidentes ao cumprimento das promessas divinas (GOLDSWORTHY, 2018, p.127). Samuel Renihan (2021, não paginado) nos lembra, que Deus cumpriu na história cada uma das promessas feitas com o patriarca: Deus deu a terra aos descendentes de Abraão (Josué 21:43-45), multiplicou os descendentes do patriarca (Lucas 1:68, 72-75) e por fim, lhe suscitou a posteridade prometida dos descendentes por meio do qual a benção universal chegaria aos gentios.

[6]Há também aspectos delas peculiares a pessoa de Abraão nesse pacto que não se aplicam a outros homens (apud COXE; OWEN, 2021, p.125-126).

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