Essa linhagem piedosa não estava
destituída do conhecimento de Deus. Ainda que a revelação não estivesse
formalmente registrada por escrito, o povo de Deus tinha acesso à sua vontade
por meio de sua comunicação e preservação ao longo das gerações.
Nesse contexto, alguns
descendentes de Sete foram levantados como instrumentos dessa transmissão.
Enoque, por exemplo, exerceu função profética ao anunciar o juízo vindouro,
enquanto Noé é descrito como pregador da justiça.
Segundo Duguid
(2015):
No princípio, Deus criou Adão e Eva para serem uma
comunidade de adoração: ele seria o Deus deles e eles seriam o seu povo. A
queda, contudo, despedaçou a comunhão deles um com o outro, assim como com
Deus; uma divisão que se aprofundou ainda mais na geração seguinte, quando Caim
assassinou seu irmão. A trajetória para longe de Deus iniciada pela linhagem de
Caim terminou com uma comunidade de adoração falsificada em Babel (Gênesis 11).
Ao mesmo tempo, uma linhagem de verdadeiros adoradores fluiu de Sete até Abrão
– Abraão –, de quem Deus prometeu fazer uma grande nação e por meio de quem
prometeu abençoar todas as nações da terra (Gênesis 12.1-3).
Assim, verifica-se que, desde os
primórdios, há uma comunidade identificável que vive sob a revelação de Deus,
distinta do restante da humanidade. Ainda que em forma incipiente, essa
comunidade pode ser compreendida como a Igreja em sua expressão histórica
inicial, caracterizada pela fé, pela recepção da Palavra e pela esperança na
promessa redentiva.
O testemunho da Epístola aos
Hebreus confirma que, já no Antigo Testamento, havia um povo constituído sob a
revelação divina. Deus falou aos “pais” pelos profetas (Hb 1.1), o que
pressupõe uma comunidade destinatária da sua Palavra. Ademais, a galeria da fé
em Hebreus 11 evidencia a continuidade de um povo que viveu pela fé na
promessa, não como indivíduos isolados, mas como participantes de uma mesma
realidade pactual ao longo da história.
Nesse mesmo sentido, o apóstolo
Paulo afirma que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”
(Gl 3.6), estabelecendo-o como paradigma da justificação pela fé. Mais do que
isso, declara que “a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela
fé, anunciou primeiro o evangelho a Abraão” (Gl 3.8). Tal afirmação demonstra
que o conteúdo essencial da mensagem redentiva não se inaugura no Novo
Testamento, mas já estava presente na economia veterotestamentária.
Alguns poderiam considerar o uso
do termo “igreja” para os santos do Antigo Testamento um anacronismo. Mas será
que o ensino global da revelação divina não permite afirmar a sua existência já
naquele período? Com efeito, o próprio Novo Testamento emprega categorias
eclesiológicas ao referir-se ao povo de Deus no período veterotestamentário. Em
Atos 7.38, ao rememorar a história de Israel, afirma-se que Moisés esteve na
“congregação no deserto”, recebendo palavras vivas para transmiti-las ao povo.
A própria inclusão dos gentios
na economia da redenção reforça essa compreensão. Ao tratar do enxerto dos
gentios, o apóstolo Paulo não descreve a formação de um novo povo, mas a
incorporação destes à mesma oliveira, cuja raiz já estava estabelecida (Rm 11).
Nesse mesmo contexto, afasta expressamente a ideia de rejeição definitiva ao
afirmar: “Porventura, rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum!” (Rm 11.1),
demonstrando que, ao longo da história, Deus sempre preservou para si um
remanescente fiel, “segundo a eleição da graça” (Rm 11.5).
Desse modo, a realidade
eclesiológica não se inaugura no Novo Testamento, mas encontra suas raízes na
própria constituição histórica do povo de Deus, o que confirma, uma vez mais, o
caráter corporativo, contínuo e pactual dessa comunidade desde os seus primórdios.
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