quinta-feira, 30 de abril de 2026

A PROPAGAÇÃO DO POVO DE DEUS


 

Essa linhagem piedosa não estava destituída do conhecimento de Deus. Ainda que a revelação não estivesse formalmente registrada por escrito, o povo de Deus tinha acesso à sua vontade por meio de sua comunicação e preservação ao longo das gerações.

Nesse contexto, alguns descendentes de Sete foram levantados como instrumentos dessa transmissão. Enoque, por exemplo, exerceu função profética ao anunciar o juízo vindouro, enquanto Noé é descrito como pregador da justiça.

Segundo Duguid (2015):

 

No princípio, Deus criou Adão e Eva para serem uma comunidade de adoração: ele seria o Deus deles e eles seriam o seu povo. A queda, contudo, despedaçou a comunhão deles um com o outro, assim como com Deus; uma divisão que se aprofundou ainda mais na geração seguinte, quando Caim assassinou seu irmão. A trajetória para longe de Deus iniciada pela linhagem de Caim terminou com uma comunidade de adoração falsificada em Babel (Gênesis 11). Ao mesmo tempo, uma linhagem de verdadeiros adoradores fluiu de Sete até Abrão – Abraão –, de quem Deus prometeu fazer uma grande nação e por meio de quem prometeu abençoar todas as nações da terra (Gênesis 12.1-3).

 

Assim, verifica-se que, desde os primórdios, há uma comunidade identificável que vive sob a revelação de Deus, distinta do restante da humanidade. Ainda que em forma incipiente, essa comunidade pode ser compreendida como a Igreja em sua expressão histórica inicial, caracterizada pela fé, pela recepção da Palavra e pela esperança na promessa redentiva.

O testemunho da Epístola aos Hebreus confirma que, já no Antigo Testamento, havia um povo constituído sob a revelação divina. Deus falou aos “pais” pelos profetas (Hb 1.1), o que pressupõe uma comunidade destinatária da sua Palavra. Ademais, a galeria da fé em Hebreus 11 evidencia a continuidade de um povo que viveu pela fé na promessa, não como indivíduos isolados, mas como participantes de uma mesma realidade pactual ao longo da história.

Nesse mesmo sentido, o apóstolo Paulo afirma que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gl 3.6), estabelecendo-o como paradigma da justificação pela fé. Mais do que isso, declara que “a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou primeiro o evangelho a Abraão” (Gl 3.8). Tal afirmação demonstra que o conteúdo essencial da mensagem redentiva não se inaugura no Novo Testamento, mas já estava presente na economia veterotestamentária.

Alguns poderiam considerar o uso do termo “igreja” para os santos do Antigo Testamento um anacronismo. Mas será que o ensino global da revelação divina não permite afirmar a sua existência já naquele período? Com efeito, o próprio Novo Testamento emprega categorias eclesiológicas ao referir-se ao povo de Deus no período veterotestamentário. Em Atos 7.38, ao rememorar a história de Israel, afirma-se que Moisés esteve na “congregação no deserto”, recebendo palavras vivas para transmiti-las ao povo.

A própria inclusão dos gentios na economia da redenção reforça essa compreensão. Ao tratar do enxerto dos gentios, o apóstolo Paulo não descreve a formação de um novo povo, mas a incorporação destes à mesma oliveira, cuja raiz já estava estabelecida (Rm 11). Nesse mesmo contexto, afasta expressamente a ideia de rejeição definitiva ao afirmar: “Porventura, rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum!” (Rm 11.1), demonstrando que, ao longo da história, Deus sempre preservou para si um remanescente fiel, “segundo a eleição da graça” (Rm 11.5).

Desse modo, a realidade eclesiológica não se inaugura no Novo Testamento, mas encontra suas raízes na própria constituição histórica do povo de Deus, o que confirma, uma vez mais, o caráter corporativo, contínuo e pactual dessa comunidade desde os seus primórdios.

 

 

 

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