A solução para o pecado foi
decretada na eternidade. O apóstolo Paulo, em 2 Timóteo (1.9), afirma que a
salvação é resultado da “determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus,
antes dos tempos eternos”. Em Tito (1.2), declara que a vida eterna foi
prometida “antes dos tempos eternos” (RENIHAN, 2021, não paginado).
A teologia reformada reconhece
que esse propósito redentivo está enraizado no decreto eterno de Deus. A
Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus, desde toda a eternidade,
ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece, e que Cristo foi designado
como Mediador do pacto da graça para executar a redenção dos eleitos.
Nesse contexto, muitos teólogos
reformados identificam um acordo intratrinitário, comumente denominado pacto da
redenção, no qual o Pai designa o Filho para realizar a obra redentiva, e o
Filho se oferece voluntariamente para cumpri-la, sendo-lhe prometida uma
recompensa correspondente. Ainda que essa formulação não seja desenvolvida de
modo técnico na Confissão, ela é considerada uma inferência legítima a partir
do conjunto do ensino bíblico sobre a obra de Cristo.
Tal estrutura encontra sólido
fundamento no Evangelho de João, no qual se evidencia, de maneira recorrente, a
relação entre envio, missão e cumprimento da vontade do Pai pelo Filho. Em João
4.34 (NAA), Cristo declara: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele
que me enviou e realizar a sua obra”, indicando a existência de uma obra
previamente determinada. No mesmo sentido, afirma: “Porque eu desci do céu, não
para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João
6.38, NAA).
A dimensão pactual dessa missão
torna-se ainda mais evidente quando o próprio Cristo explicita a extensão e o
objeto dessa obra. Em João 6.39 (NAA), declara: “E a vontade de quem me enviou
é esta: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, pelo contrário, eu o
ressuscitarei no último dia”. Aqui se observa não apenas o envio, mas também a
doação de um povo ao Filho, cuja redenção lhe é confiada.
Essa mesma ideia é reiterada em
João 10.14–15 (NAA): “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a
minha vida pelas ovelhas”. A entrega voluntária da vida evidencia a natureza
intencional e pactuada da obra redentiva. Tal voluntariedade é explicitada de
forma ainda mais clara em João 10.17–18 (NAA): “Por isso, o Pai me ama, porque
eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu
espontaneamente a dou”.
O ápice dessa revelação
encontra-se na oração sacerdotal de Cristo, em João 17, onde a linguagem
pactual se torna ainda mais explícita. Cristo afirma ter recebido autoridade
sobre toda carne “a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe
deste” (João 17.2, NAA). Mais adiante, declara: “Eu te glorifiquei na terra,
consumando a obra que me confiaste para fazer” (João 17.4, NAA), evidenciando o
cumprimento de uma missão previamente estabelecida. A referência reiterada
àqueles que o Pai “lhe deu” (João 17.6, 9, 24) reforça a ideia de um povo
entregue ao Filho no âmbito desse desígnio eterno.
A participação do Espírito
Santo, por sua vez, é igualmente delineada no mesmo Evangelho, evidenciando sua
atuação na aplicação da redenção. Em João 14.16–17 (NAA), Cristo promete: “Eu
pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja para
sempre com vocês, o Espírito da verdade”. O Espírito é apresentado como aquele
que habita no povo de Deus, garantindo a eficácia da obra redentiva. Em João
16.13–14 (NAA), afirma-se que “quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará
a toda a verdade [...] ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e
lhes há de anunciar”. Observa-se, assim, que o Espírito não atua de forma
independente, mas aplica e comunica aquilo que procede do Filho, no cumprimento
do desígnio do Pai.
Ademais, o Espírito é aquele que
opera a regeneração, condição indispensável para a participação nos benefícios
do pacto. Em João 3.5–6 (NAA), Cristo declara: “Em verdade, em verdade lhe
digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O
que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”.
Dessa forma, a entrada no reino e a participação na salvação decretada
eternamente dependem da atuação eficaz do Espírito Santo.
Dessa forma, o testemunho
joanino corrobora a leitura reformada segundo a qual a obra da redenção envolve
a atuação harmônica das três pessoas da Trindade: o Pai que planeja e envia, o
Filho que executa e cumpre, e o Espírito que aplica e efetiva. O envio do
Filho, sua obediência voluntária, a doação de um povo e a aplicação dessa obra
pelo Espírito evidenciam, em linguagem bíblica, aquilo que a teologia
sistemática descreve como pacto da redenção.
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