A situação do homem
antes da queda
É certo que o termo “aliança”
não aparece expressamente nos primeiros capítulos da Escritura. Todavia, a
ausência do vocábulo não constitui argumento suficiente para negar a realidade
pactual anterior a Gênesis 6.18. Pode-se falar legitimamente de pacto mesmo sem
o emprego formal do termo, assim como é possível reconhecer a realeza de Yahweh
sem a utilização explícita da palavra “rei” (GENTRY; WELLUM, 2021, p.73).
Fenômeno semelhante ocorre em 2
Samuel 7, em que a promessa feita a Davi não é inicialmente denominada aliança,
embora posteriormente seja assim reconhecida (Sl 89.3, 28, 34, 39; Sl 132.12;
Jr 33.21).
De todo modo, há elementos
textuais suficientes que indicam a existência de uma aliança com Adão. Em
Oséias 6.7, por exemplo, afirma-se que Israel transgrediu a aliança à
semelhança de Adão. Além disso, o próprio relato de Gênesis apresenta os
componentes essenciais de uma estrutura pactual: partes (Deus e o homem),
estipulação (a proibição de comer da árvore – Gn 2.17), sanção (a morte) e uma
promessa implícita de vida mediante obediência. Os textos de Romanos 5.12–19[1] e 1 Coríntios 15.21–22 reforçam essa
compreensão ao apresentarem Adão como cabeça representativa da humanidade, em
paralelo com Cristo. Trata-se, portanto, de uma estrutura inequivocamente
pactual.
Ademais, o uso do verbo
“estabelecer” na aliança com Noé sugere não uma inauguração absoluta, mas a
continuidade ou renovação de um arranjo pactual prévio (SCHREINER, 2021,
p.24–28).
A narrativa de Gênesis inicia-se
com a afirmação da existência de um Deus Criador, que ordena todas as coisas
com sabedoria. O homem é criado de modo distinto das demais criaturas, dotado
de racionalidade e de retidão original.
Segundo Coxe (apud COXE; OWEN,
2021, p. 82), essa retidão consistia na perfeita conformidade da natureza
humana à lei divina, sem qualquer inclinação contrária à vontade de Deus. Tal
condição não apenas capacitava o homem à obediência, como também o colocava em
verdadeira comunhão com o Criador.
Deus impõe ao homem mandamentos
que devem ser integralmente observados. Esses mandamentos podem ser
compreendidos em dois níveis: um geral e outro específico.
Palmer Robertson (2011, p. 61,
73–74) identifica, de um lado, deveres gerais — como trabalho, casamento,
domínio e observância do sábado e, de outro, um preceito positivo específico: a
proibição de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este
mandamento específico funcionava como ponto focal da obediência. Não se tratava
de mera restrição alimentar, mas de um teste quanto à disposição do homem de
submeter-se à autoridade divina. A obediência ou desobediência nesse ponto
teria implicações diretas sobre sua relação com Deus[2].
Os aspectos gerais da responsabilidade humana, portanto, encontram-se
concentrados e representados nesse preceito específico.
Por essa razão, Coxe (apud COXE;
OWEN, 2021, p. 83–84) dedica especial atenção a esse elemento focal. Tal teste
também é descrito por alguns estudiosos como um período probatório, por ter
ocorrido em um intervalo relativamente curto: entre o recebimento do mandamento
e a sua violação por Adão (VOS, 2007, p. 84).
Schreiner aprofunda essa análise
ao tratar das responsabilidades de Adão, inclusive em relação à sua esposa:
Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus para governarem o
mundo como servos de Deus e seus filhos. Também há evidências de que eles
deveriam atuar como sacerdotes-reis. [...]O homem e a mulher, no entanto, não
deveriam exercer seu governo sacerdotal de forma autônoma. Eles sempre estariam
sujeitos à vontade Deus. O Senhor derramou sua bondade sobre eles, colocando-os
num jardim edílico com árvores verdejantes pelas quais eles eram alimentados, e
o homem e a mulher deveriam demonstrar sua submissão ao senhorio de Deus,
recusando-se a comer da “arvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.17). (SCHREINER,
2021, p.31-32).
Schreiner observa que Adão e Eva
foram constituídos como vice-regentes de Deus, exercendo domínio sob autoridade
divina. Sua vocação incluía elementos reais e sacerdotais, mas sempre
subordinados à vontade do Criador. A esse mandamento, Deus acrescenta uma
sanção explícita: “certamente morrerás” (Gn 2.17). A ameaça não deixa margem
para dúvida quanto à seriedade da aliança. Contudo, também se pressupõe uma
promessa: a vida em caso de obediência.
Nesse ponto, a tradição
reformada identifica uma promessa implícita de vida eterna. A Confissão de Fé
de Westminster afirma que “o primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de
obras, no qual a vida foi prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a
condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7, §2).
Embora a Confissão não
desenvolva extensivamente a natureza dessa vida, a teologia reformada, a partir
desse enunciado, compreende que não se tratava de mera continuação da
existência natural, mas de uma vida confirmada e superior, vinculada ao
cumprimento das exigências pactuais.
Segundo Coxe (apud COXE; OWEN, 2021,
p.83, 86-89) a
árvore da vida foi instituída como um sinal e garantia da vida eterna (Ap 2.7)
a Adão. Isso é confirmado pela maneira como o próprio Deus lida com Adão em
relação a árvore após a queda impedindo-o de ter acesso a árvore da vida para
receber o benefício. Embora criado reto, Adão poderia ter experimentado maior
felicidade do que aquele provado imediatamente ao ser criado. Certamente que
essa recompensa não implicava apenas em permanecer no estado que estava, mas que
Adão alcançaria algo que ainda não tinha, viver eternamente[3].
Berkhof sustenta que a vida
prometida não consistia meramente na continuação da existência natural, mas na
elevação do homem a um estado de vida confirmada, irrevogável e gloriosa:
A clara implicação do castigo anunciado é que, em caso de
obediência, a morte não entraria no mundo, e isto só pode significar que a vida
teria continuidade. Tem se objetado que isto significaria apenas a continuidade
da vida natural de Adão, e não daquilo que a escritura chama de vida eterna.
Mas a ideia bíblica de vida é vida em comunhão com Deus, e esta é a vida que
Adão tinha, embora no caso dele ainda podia ser perdida. Se Adão se saísse bem
na prova, esta vida não somente seria mantida, mas também deixaria de estar
sujeita a ser perdida e, portanto, seria elevada a um plano mais alto. [...] Certamente
a promessa implícita não significa que, em caso de obediência, Adão teria
permissão de viver da maneira usual, isto é, de continuar tendo a vida natural
comum, pois essa vida já era sua em virtude da sua criação, e, portanto, não
poderia ser apresentada como recompensa pela obediência. É evidente que a
promessa implícita era da vida elevada ao seu supremo desenvolvimento de perene
bem-aventurança e glória. (BERKHOF, 2009, p.197, 199).
J. Geerhardus Vos (2007, p.84),
no mesmo sentido, diz que se Adão e Eva tivessem obedecido “lhes seria dado o
direito de comer do fruto da árvore da vida, quando receberiam a vida eterna e
jamais lhes seria possível cometer pecado ou morrer”. Ao mostrar o mandamento,
a penalidade e recompensa, Nehemiah Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.82-85) deseja
apontar os elementos de uma aliança.
Para John Owen (apud COXE; OWEN, 2021,
p.263, 264) a ordem
de Deus para Adão continha a natureza expressa de uma aliança “porque
tratava-se de um acordo de Deus e do homem concernente a obediência e
desobediência, recompensas e punições. Onde há uma lei concernente a essas
coisas, e um acordo sobre ela por todas as partes envolvidas, então existe uma
aliança formal”. O pacto da criação feito com Adão vinculava todos os homens,
se Adão permanecesse no pacto pela obediência, todas as pessoas permaneceriam
com ele, mas se pecasse, todos cairiam com ele (Rm 5.19).
A partir dessa estrutura
representativa, impõe-se reconhecer que a aliança estabelecida com Adão não se
limita à sua pessoa individualmente considerada, mas alcança, desde a origem, a
sua descendência. Tal conclusão não decorre de construção teológica posterior,
mas encontra fundamento na própria ordem criacional. Conforme se observa em
Gênesis 1.28, Deus ordena ao homem que se multiplique e encha a terra,
estabelecendo uma dinâmica de continuidade geracional que integra o propósito
divino para a humanidade.
Nesse contexto, a família não
constitui elemento acidental, mas parte integrante da estrutura pela qual a
vida humana se desenvolve diante de Deus. A instituição do vínculo conjugal em
Gênesis 2.24 evidencia que a propagação da descendência ocorre dentro de uma
ordem estabelecida pelo próprio Criador, servindo como meio ordinário de
continuidade da humanidade.
Desse modo, a posteridade de
Adão deve ser compreendida como incluída na economia pactual desde o princípio.
A promessa de vida, bem como a ameaça de morte, não diz respeito exclusivamente
ao primeiro homem, mas a todos aqueles que nele estão compreendidos. A
representação exercida por Adão, portanto, pressupõe a inclusão de sua
descendência, evidenciando que a relação de Deus com o homem, desde a criação,
se dá em termos corporativos, e não meramente individuais.
Ainda nesse contexto, deve-se
considerar que a ordem conferida ao homem em Gênesis 1.28 não se restringe à
multiplicação, mas abrange aquilo que a teologia reformada denomina de mandato
cultural. Ao homem é atribuída a responsabilidade de frutificar, exercer
domínio e administrar a criação, atuando como vice-regente sob a autoridade de
Deus.
Tal mandato não possui caráter
autônomo, mas encontra-se inserido na própria estrutura pactual estabelecida na
criação. O trabalho, o domínio sobre a terra e a constituição da família
integram uma única ordem, pela qual o homem deveria viver em conformidade com a
vontade divina. Nesse sentido, a família não apenas viabiliza a continuidade da
descendência, mas também constitui o ambiente ordinário em que esse mandato é
desenvolvido ao longo das gerações.
Tal princípio assume relevância
decisiva para a compreensão da queda e de seus efeitos, uma vez que a corrupção
e a culpa não são fenômenos isolados, mas atingem a totalidade da raça humana
em razão da unidade representativa estabelecida no pacto da criação.
James
P. Boyce corrobora que “no pacto, sob o qual ele pecou, ele agiu não apenas
como um indivíduo, o único da sua espécie, ou um homem isolado de todos os
outros de sua espécie, mas, como o líder da raça, tanto por sua descendência
como por si mesmo.” (BOYCE, 2020, p. 311).
Nesse
ponto, a formulação confessional clássica confirma de maneira precisa a
estrutura aqui delineada. A Confissão de Fé de Westminster[4] estabelece que, embora
haja uma distância infinita entre Deus e a criatura, “eles nunca poderiam fruir
dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma condescendência
voluntária da parte de Deus, a qual lhe agradou expressar por meio de um pacto”
(CFW, cap. 7.1).
No
mesmo sentido, afirma expressamente que “o primeiro pacto feito com o homem foi
um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua
posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7.2).
Dessa
forma, a tradição reformada não apenas reconhece a existência de uma aliança na
criação, mas também a qualifica de modo técnico, evidenciando seus elementos
essenciais: condição, promessa e sanção. Tal formulação confessional reforça
que a vida prometida a Adão não era meramente natural, mas dependia da
perseverança em perfeita obediência.
[1] Berkhof (2009, p.198) argumenta que o
paralelo traçado por Paulo em Romanos 5.12-21, no contexto da doutrina da
justificação, só pode ser explicado com base no pressuposto de que a semelhança
de Cristo, o primeiro Adão era chefe de uma aliança.
[2] Como bem-dito
por Calvino nas Institutas: “a proibição sob a árvore do bem e do mal foi um
exame da obediência, para que Adão provasse estar livremente submetido à
autoridade de Deus” (2008, p.228).
[3]Essa felicidade
elevada embora condicionada era na verdade fruto da bondade deliberada e
soberana de Deus, que não tinha qualquer obrigação de dar ao homem algum
prêmio. O castigo era um débito, a recompensa não (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p. 88).
[4] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. A Confissão de Fé
de Westminster. Igreja Presbiteriana do Brasil. Disponível em: https://www.ipb.org.br/content/Arquivos/A_Confissao_de_Fe_de_Westminster.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. (cap. 7, §§1–2).
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