quarta-feira, 29 de abril de 2026

ALIANÇA DA CRIAÇÃO - PARTE 2

 

A situação do homem antes da queda

 

É certo que o termo “aliança” não aparece expressamente nos primeiros capítulos da Escritura. Todavia, a ausência do vocábulo não constitui argumento suficiente para negar a realidade pactual anterior a Gênesis 6.18. Pode-se falar legitimamente de pacto mesmo sem o emprego formal do termo, assim como é possível reconhecer a realeza de Yahweh sem a utilização explícita da palavra “rei” (GENTRY; WELLUM, 2021, p.73).

Fenômeno semelhante ocorre em 2 Samuel 7, em que a promessa feita a Davi não é inicialmente denominada aliança, embora posteriormente seja assim reconhecida (Sl 89.3, 28, 34, 39; Sl 132.12; Jr 33.21).

De todo modo, há elementos textuais suficientes que indicam a existência de uma aliança com Adão. Em Oséias 6.7, por exemplo, afirma-se que Israel transgrediu a aliança à semelhança de Adão. Além disso, o próprio relato de Gênesis apresenta os componentes essenciais de uma estrutura pactual: partes (Deus e o homem), estipulação (a proibição de comer da árvore – Gn 2.17), sanção (a morte) e uma promessa implícita de vida mediante obediência. Os textos de Romanos 5.12–19[1]  e 1 Coríntios 15.21–22 reforçam essa compreensão ao apresentarem Adão como cabeça representativa da humanidade, em paralelo com Cristo. Trata-se, portanto, de uma estrutura inequivocamente pactual.

Ademais, o uso do verbo “estabelecer” na aliança com Noé sugere não uma inauguração absoluta, mas a continuidade ou renovação de um arranjo pactual prévio (SCHREINER, 2021, p.24–28).

A narrativa de Gênesis inicia-se com a afirmação da existência de um Deus Criador, que ordena todas as coisas com sabedoria. O homem é criado de modo distinto das demais criaturas, dotado de racionalidade e de retidão original.

Segundo Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p. 82), essa retidão consistia na perfeita conformidade da natureza humana à lei divina, sem qualquer inclinação contrária à vontade de Deus. Tal condição não apenas capacitava o homem à obediência, como também o colocava em verdadeira comunhão com o Criador.

Deus impõe ao homem mandamentos que devem ser integralmente observados. Esses mandamentos podem ser compreendidos em dois níveis: um geral e outro específico.

Palmer Robertson (2011, p. 61, 73–74) identifica, de um lado, deveres gerais — como trabalho, casamento, domínio e observância do sábado e, de outro, um preceito positivo específico: a proibição de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este mandamento específico funcionava como ponto focal da obediência. Não se tratava de mera restrição alimentar, mas de um teste quanto à disposição do homem de submeter-se à autoridade divina. A obediência ou desobediência nesse ponto teria implicações diretas sobre sua relação com Deus[2]. Os aspectos gerais da responsabilidade humana, portanto, encontram-se concentrados e representados nesse preceito específico.

Por essa razão, Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p. 83–84) dedica especial atenção a esse elemento focal. Tal teste também é descrito por alguns estudiosos como um período probatório, por ter ocorrido em um intervalo relativamente curto: entre o recebimento do mandamento e a sua violação por Adão (VOS, 2007, p. 84).

Schreiner aprofunda essa análise ao tratar das responsabilidades de Adão, inclusive em relação à sua esposa:

 

Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus para governarem o mundo como servos de Deus e seus filhos. Também há evidências de que eles deveriam atuar como sacerdotes-reis. [...]O homem e a mulher, no entanto, não deveriam exercer seu governo sacerdotal de forma autônoma. Eles sempre estariam sujeitos à vontade Deus. O Senhor derramou sua bondade sobre eles, colocando-os num jardim edílico com árvores verdejantes pelas quais eles eram alimentados, e o homem e a mulher deveriam demonstrar sua submissão ao senhorio de Deus, recusando-se a comer da “arvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.17). (SCHREINER, 2021, p.31-32).

 

Schreiner observa que Adão e Eva foram constituídos como vice-regentes de Deus, exercendo domínio sob autoridade divina. Sua vocação incluía elementos reais e sacerdotais, mas sempre subordinados à vontade do Criador. A esse mandamento, Deus acrescenta uma sanção explícita: “certamente morrerás” (Gn 2.17). A ameaça não deixa margem para dúvida quanto à seriedade da aliança. Contudo, também se pressupõe uma promessa: a vida em caso de obediência.

Nesse ponto, a tradição reformada identifica uma promessa implícita de vida eterna. A Confissão de Fé de Westminster afirma que “o primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras, no qual a vida foi prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7, §2).

Embora a Confissão não desenvolva extensivamente a natureza dessa vida, a teologia reformada, a partir desse enunciado, compreende que não se tratava de mera continuação da existência natural, mas de uma vida confirmada e superior, vinculada ao cumprimento das exigências pactuais.

Segundo Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.83, 86-89) a árvore da vida foi instituída como um sinal e garantia da vida eterna (Ap 2.7) a Adão. Isso é confirmado pela maneira como o próprio Deus lida com Adão em relação a árvore após a queda impedindo-o de ter acesso a árvore da vida para receber o benefício. Embora criado reto, Adão poderia ter experimentado maior felicidade do que aquele provado imediatamente ao ser criado. Certamente que essa recompensa não implicava apenas em permanecer no estado que estava, mas que Adão alcançaria algo que ainda não tinha, viver eternamente[3].

Berkhof sustenta que a vida prometida não consistia meramente na continuação da existência natural, mas na elevação do homem a um estado de vida confirmada, irrevogável e gloriosa:

 

A clara implicação do castigo anunciado é que, em caso de obediência, a morte não entraria no mundo, e isto só pode significar que a vida teria continuidade. Tem se objetado que isto significaria apenas a continuidade da vida natural de Adão, e não daquilo que a escritura chama de vida eterna. Mas a ideia bíblica de vida é vida em comunhão com Deus, e esta é a vida que Adão tinha, embora no caso dele ainda podia ser perdida. Se Adão se saísse bem na prova, esta vida não somente seria mantida, mas também deixaria de estar sujeita a ser perdida e, portanto, seria elevada a um plano mais alto. [...] Certamente a promessa implícita não significa que, em caso de obediência, Adão teria permissão de viver da maneira usual, isto é, de continuar tendo a vida natural comum, pois essa vida já era sua em virtude da sua criação, e, portanto, não poderia ser apresentada como recompensa pela obediência. É evidente que a promessa implícita era da vida elevada ao seu supremo desenvolvimento de perene bem-aventurança e glória. (BERKHOF, 2009, p.197, 199).

 

 

J. Geerhardus Vos (2007, p.84), no mesmo sentido, diz que se Adão e Eva tivessem obedecido “lhes seria dado o direito de comer do fruto da árvore da vida, quando receberiam a vida eterna e jamais lhes seria possível cometer pecado ou morrer”. Ao mostrar o mandamento, a penalidade e recompensa, Nehemiah Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.82-85) deseja apontar os elementos de uma aliança.

Para John Owen (apud COXE; OWEN, 2021, p.263, 264) a ordem de Deus para Adão continha a natureza expressa de uma aliança “porque tratava-se de um acordo de Deus e do homem concernente a obediência e desobediência, recompensas e punições. Onde há uma lei concernente a essas coisas, e um acordo sobre ela por todas as partes envolvidas, então existe uma aliança formal”. O pacto da criação feito com Adão vinculava todos os homens, se Adão permanecesse no pacto pela obediência, todas as pessoas permaneceriam com ele, mas se pecasse, todos cairiam com ele (Rm 5.19).

A partir dessa estrutura representativa, impõe-se reconhecer que a aliança estabelecida com Adão não se limita à sua pessoa individualmente considerada, mas alcança, desde a origem, a sua descendência. Tal conclusão não decorre de construção teológica posterior, mas encontra fundamento na própria ordem criacional. Conforme se observa em Gênesis 1.28, Deus ordena ao homem que se multiplique e encha a terra, estabelecendo uma dinâmica de continuidade geracional que integra o propósito divino para a humanidade.

Nesse contexto, a família não constitui elemento acidental, mas parte integrante da estrutura pela qual a vida humana se desenvolve diante de Deus. A instituição do vínculo conjugal em Gênesis 2.24 evidencia que a propagação da descendência ocorre dentro de uma ordem estabelecida pelo próprio Criador, servindo como meio ordinário de continuidade da humanidade.

Desse modo, a posteridade de Adão deve ser compreendida como incluída na economia pactual desde o princípio. A promessa de vida, bem como a ameaça de morte, não diz respeito exclusivamente ao primeiro homem, mas a todos aqueles que nele estão compreendidos. A representação exercida por Adão, portanto, pressupõe a inclusão de sua descendência, evidenciando que a relação de Deus com o homem, desde a criação, se dá em termos corporativos, e não meramente individuais.

Ainda nesse contexto, deve-se considerar que a ordem conferida ao homem em Gênesis 1.28 não se restringe à multiplicação, mas abrange aquilo que a teologia reformada denomina de mandato cultural. Ao homem é atribuída a responsabilidade de frutificar, exercer domínio e administrar a criação, atuando como vice-regente sob a autoridade de Deus.

Tal mandato não possui caráter autônomo, mas encontra-se inserido na própria estrutura pactual estabelecida na criação. O trabalho, o domínio sobre a terra e a constituição da família integram uma única ordem, pela qual o homem deveria viver em conformidade com a vontade divina. Nesse sentido, a família não apenas viabiliza a continuidade da descendência, mas também constitui o ambiente ordinário em que esse mandato é desenvolvido ao longo das gerações.

 

Tal princípio assume relevância decisiva para a compreensão da queda e de seus efeitos, uma vez que a corrupção e a culpa não são fenômenos isolados, mas atingem a totalidade da raça humana em razão da unidade representativa estabelecida no pacto da criação.

James P. Boyce corrobora que “no pacto, sob o qual ele pecou, ele agiu não apenas como um indivíduo, o único da sua espécie, ou um homem isolado de todos os outros de sua espécie, mas, como o líder da raça, tanto por sua descendência como por si mesmo.” (BOYCE, 2020, p. 311).

Nesse ponto, a formulação confessional clássica confirma de maneira precisa a estrutura aqui delineada. A Confissão de Fé de Westminster[4] estabelece que, embora haja uma distância infinita entre Deus e a criatura, “eles nunca poderiam fruir dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus, a qual lhe agradou expressar por meio de um pacto” (CFW, cap. 7.1).

No mesmo sentido, afirma expressamente que “o primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW, cap. 7.2).

Dessa forma, a tradição reformada não apenas reconhece a existência de uma aliança na criação, mas também a qualifica de modo técnico, evidenciando seus elementos essenciais: condição, promessa e sanção. Tal formulação confessional reforça que a vida prometida a Adão não era meramente natural, mas dependia da perseverança em perfeita obediência.



[1]  Berkhof (2009, p.198) argumenta que o paralelo traçado por Paulo em Romanos 5.12-21, no contexto da doutrina da justificação, só pode ser explicado com base no pressuposto de que a semelhança de Cristo, o primeiro Adão era chefe de uma aliança.

[2] Como bem-dito por Calvino nas Institutas: “a proibição sob a árvore do bem e do mal foi um exame da obediência, para que Adão provasse estar livremente submetido à autoridade de Deus” (2008, p.228).

[3]Essa felicidade elevada embora condicionada era na verdade fruto da bondade deliberada e soberana de Deus, que não tinha qualquer obrigação de dar ao homem algum prêmio. O castigo era um débito, a recompensa não (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p. 88).

[4] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. A Confissão de Fé de Westminster. Igreja Presbiteriana do Brasil. Disponível em: https://www.ipb.org.br/content/Arquivos/A_Confissao_de_Fe_de_Westminster.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. (cap. 7, §§1–2).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O BATISMO AINDA FALA

 Muitos cristãos enxergam o batismo como uma lembrança distante. Foi um acontecimento importante, mas ficou no passado. Entretanto, a Escrit...