A situação do homem depois da queda
A condição original do homem era
de liberdade e capacidade moral para obedecer. Contudo, sendo criatura mutável,
Adão, diante da tentação, decidiu violar o pacto estabelecido por Deus. A transgressão do mandamento específico
constitui a quebra formal da aliança. Por meio desse ato, o pecado entrou no
mundo e, com ele, todas as suas consequências. A partir desse momento, toda a
humanidade passa a nascer em estado de pecado, sob a culpa de Adão e sob a
corrupção da natureza. O pacto de obras permanece como exigência, mas já não
oferece possibilidade de vida, apenas condenação. O homem, que antes vivia em
comunhão com Deus, passa a experimentar alienação. Sua condição agora é de
culpa e corrupção. A imagem de Deus é desfigurada, a mente obscurecida, as
afeições desordenadas e a vontade inclinada ao mal. Coxe (apud COXE; OWEN,
2021, p.94–98) descreve esse estado como de completa impotência espiritual. O
homem não apenas peca, mas está sob o domínio do pecado, incapaz de
restaurar-se por si mesmo[1].
Berkhof (2009,
p.200) esclarece que a morte resultante da queda não implica aniquilação, mas
separação de Deus, fonte da vida. A morte espiritual ocorre imediatamente,
enquanto a morte física passa a operar progressivamente.
A condição do homem após a queda
é igualmente descrita com precisão pela Confissão de Fé de Westminster.
Afirma-se que, “tendo-se o homem tornado, por sua queda, incapaz de vida por
meio desse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado
pacto da graça” (CFW, cap. 7.3)[2].
Essa declaração é de suma
importância, pois evidencia que o pacto de obras não foi abolido em sua
exigência, mas tornou-se incapaz de conferir vida ao homem caído. A exigência
de obediência permanece, porém sem qualquer possibilidade de cumprimento por parte
do homem em seu estado de corrupção.
Diante da incapacidade absoluta
do homem após a queda, surge uma questão teológica central: quem, então, cumpre
as exigências do pacto de obras?
A resposta bíblica é clara.
Aquilo que Adão, como primeiro cabeça federal, deixou de cumprir, é
perfeitamente realizado por Cristo, o último Adão. O apóstolo Paulo estabelece
esse paralelo de forma explícita em Romanos 5.18–19 (NAA): “assim como, por uma
só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim
também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação
que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se
tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se
tornarão justos”.
Do mesmo modo, em 1 Coríntios
15.22 (NAA), afirma-se: “porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim
também todos serão vivificados em Cristo”. Esses textos demonstram que Cristo
atua como cabeça representativa de um novo povo, cumprindo aquilo que era
exigido no pacto original.
A Confissão de Fé de Westminster
desenvolve essa mesma estrutura ao afirmar que o Senhor Jesus, como Mediador,
“nasceu sob a lei, e a cumpriu perfeitamente” (CFW, cap. 8, §4). Essa afirmação
é decisiva: Cristo não apenas sofre a penalidade do pacto violado (obediência
passiva), mas também cumpre integralmente suas exigências (obediência ativa).
Além disso, a Confissão declara
que, por sua obediência e sacrifício, Cristo “satisfez plenamente à justiça de
seu Pai e adquiriu, não só a reconciliação, mas também uma herança eterna no
reino dos céus para todos aqueles que o Pai lhe deu” (CFW, cap. 8, §5).
Desse modo, fica evidente que o
pacto de obras não é simplesmente ignorado ou revogado no plano redentivo. Ao
contrário, suas exigências são plenamente satisfeitas em Cristo. Ele cumpre a
condição de perfeita obediência e suporta a sanção da desobediência,
realizando, assim, tudo aquilo que o homem caído era incapaz de fazer.
Portanto, a exigência do pacto
de obras permanece em vigor, mas, após a queda, deixou de ser um caminho
possível de vida para o homem. Sua função, nesse estado, é revelar o pecado e
estabelecer a justa condenação do transgressor.
Diante disso, a Escritura
apresenta Cristo como o segundo Adão, aquele que, como cabeça representativa de
um novo povo, cumpre perfeitamente todas as exigências originalmente impostas
ao homem. Sua obediência não se limita à satisfação da penalidade do pecado,
mas inclui o cumprimento integral da justiça requerida por Deus.
A Confissão de Fé de Westminster
expressa essa realidade ao afirmar que o Senhor Jesus, como Mediador, “nasceu
sob a lei, e a cumpriu perfeitamente” (CFW, cap. 8, §4), e que, por sua
obediência e sacrifício, “satisfez plenamente à justiça de seu Pai e adquiriu
[...] uma herança eterna” para o seu povo (CFW, cap. 8, §5).
Desse modo, o pacto de obras não
é abolido no plano da redenção, mas plenamente cumprido em Cristo. Aquilo que
era exigido do homem é realizado por Ele, e aquilo que era devido ao homem é
por Ele suportado.
Conclui-se, assim, que a vida
prometida no pacto de obras é concedida, não por meio da obediência humana, mas
mediante a união com Cristo pela fé. É nele, e somente nele, que a justiça é
cumprida, a condenação removida e a vida, originalmente prometida, finalmente
alcançada.
[1]O estado do
homem depois desse fato se tornou deplorável. A confissão de fé de 1689 diz que
com a queda, o pacto de obras quebrado tornou-se inútil para conduzir a vida
(2019, p.79). Contudo, “A mesma lei que primeiramente foi inscrita no coração
do homem, continuou a ser uma regra perfeita de justiça após a queda” (2019,
p.76). Denault (2018, p.62- 64) advoga que os homens permanecem “sob a
obrigação de obedecer a Deus por causa desse pacto”. Ele é o fundamento da
justiça retributiva de Deus, que anuncia que o salário do pecado é a morte e
promete a vida em caso de obediência, embora o homem em seu estado atual já não
tenha acesso as bênçãos dele através de suas obras.
[2] CFW,
VII.3.
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