Ali mesmo no Éden, o Senhor
procurou o homem e revelou a sua graça. Na sentença pronunciada em Gênesis
(3.15) contra a serpente, foi anunciada a bendita promessa de redenção e
salvação dos pecadores[1]. A
descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente, e o reino do diabo seria
completamente derrotado e arruinado. Quando se consideram textos como Romanos
(5.12–19) e 1 Coríntios (15.21–22), verifica-se que Cristo é o último Adão,
aquele que concede justiça ao seu povo (SCHREINER, 2021, p.35), cumprindo
perfeitamente as exigências do pacto de obras.
Essa promessa, comumente
denominada protoevangelho, não constitui mera declaração isolada, mas o
primeiro anúncio formal do pacto da graça na história. Ainda que apresentada de
forma embrionária, já contém, em essência, todos os elementos fundamentais da
redenção: um Mediador prometido, um conflito pactual entre duas descendências e
a certeza da vitória final de Deus sobre o mal. Trata-se, portanto, do ponto
inaugural da revelação redentiva, a partir do qual toda a história bíblica se
desenvolve de maneira orgânica e progressiva.
O que em Gênesis 3.15 é
apresentado de forma inicial será posteriormente ampliado nas alianças com Noé,
Abraão, Moisés e Davi, até alcançar sua plena manifestação em Cristo. Não há,
portanto, múltiplos planos redentivos, mas um único propósito divino que se
desdobra historicamente. A unidade do pacto da graça, conforme sustentada pela
teologia de Westminster, encontra aqui seu ponto de partida.
A Confissão de Fé de Westminster
reconhece que, tendo o homem se tornado incapaz de vida pelo pacto de obras,
Deus dignou-se estabelecer um segundo pacto, no qual oferece livremente aos
pecadores vida e salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles fé e
prometendo o Espírito Santo para torná-los capazes de crer (CFW, cap. 7.3).
Ademais, afirma que aprouve a Deus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar
o Senhor Jesus como Mediador, dando-lhe um povo desde toda a eternidade para
ser por ele redimido, chamado, justificado, santificado e glorificado (CFW,
cap. 8.1). Declara ainda que o Senhor Jesus, ao assumir a natureza humana,
sujeitou-se à lei e a cumpriu perfeitamente e, por sua obediência e sacrifício,
satisfez plenamente à justiça divina, adquirindo para os eleitos reconciliação
e vida eterna (CFW, cap. 8.4–5).
No mesmo sentido, a Confissão de
Fé Escocesa afirma que, após a queda, Deus procurou o homem, convenceu-o do
pecado e lhe fez a promessa gratuita de que a descendência da mulher esmagaria
a cabeça da serpente, sendo essa promessa progressivamente revelada e
firmemente abraçada pelos fiéis ao longo de toda a história redentiva, desde
Adão até a vinda de Cristo. Acrescenta ainda que Deus preservou, instruiu e
governou a sua Igreja em todas as épocas, conduzindo-a até o cumprimento dessa
promessa na encarnação do Messias[2].
É precisamente
nesse contexto de promessa progressivamente revelada que se deve compreender a
forma pela qual Deus passa a se relacionar com os eleitos ao longo da história.
Com a promessa de salvação pelo descendente da mulher, os homens escolhidos
foram trazidos à administração do pacto da graça. Antes, estavam sob a
exigência de obediência perfeita no pacto de obras; porém, após a queda, a
relação e aceitação diante de Deus passaram a se dar exclusivamente por meio de
Cristo. Desde aquele momento, Deus já havia separado um povo para si (COXE,
apud COXE; OWEN, 2021, p.107).
Essa separação, anunciada de
forma inaugural em Gênesis 3.15, passa a se manifestar concretamente na
história por meio da distinção entre duas linhagens.
[1]A revelação da
promessa de Gênesis 3.15 vai crescendo progressivamente. A Confissão de 1689
(2020, p.29) declara que o evangelho foi revelado, primeiramente, na promessa
de salvação pela descendência da mulher e depois por etapas sucessivas até que
a plena revelação foi completada no NT. Hércules Collins (2020, p.29) em seu
catecismo assegura que o santo Evangelho foi revelado pelo próprio Deus no
Paraíso; depois, proclamado pelos santos patriarcas e profetas, e prefigurado
pelos sacrifícios e outras cerimônias da Lei. E, finalmente, cumprido por meio
de Jesus Cristo, o Filho amado.
[2]
CONFISSÃO DE FÉ ESCOCESA. Confissão de fé escocesa. Disponível em: https://www.monergismo.com/textos/credos/confissao_escocesa.htm
. Acesso em: 15 abr. 2026. caps. 4–5.
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