Uma das coisas que mais
transformou minha maneira de ler a Bíblia foi compreender a importância da
linguagem pactual. Quando comecei a estudar teologia pactual, muitos textos que
pareciam contraditórios passaram a fazer sentido.
Por exemplo, pense em João
15.
Ali Jesus fala de ramos que
estão nele e que, mesmo assim, não produzem fruto. Esses ramos são cortados e
lançados ao fogo. Mas, ao mesmo tempo, no próprio capítulo, Jesus ensina que
quem permanece nele produz muito fruto.
A pergunta é inevitável:
afinal, é possível alguém estar em Cristo e não perseverar?
A RESPOSTA DEPENDE DO QUE
ESTAMOS ENTENDENDO POR "ESTAR EM CRISTO".
A teologia reformada sempre
ensinou que a união salvífica com Cristo produz necessariamente perseverança.
Isso porque a união com Cristo não é apenas um benefício entre vários outros.
Ela é a fonte de todos os benefícios da salvação.
Quem está verdadeiramente
unido a Cristo recebe dele justificação, santificação e preservação até o fim.
É por isso que Romanos 8 diz
que os predestinados são chamados, os chamados são justificados e os
justificados são glorificados. Não existe perda pelo caminho.
É por isso que Jesus afirma
em João 10 que ninguém pode arrancar suas ovelhas de suas mãos.
É por isso que Paulo declara
em Filipenses 1 que aquele que começou a boa obra irá completá-la.
A perseverança não é algo
separado da união com Cristo. Ela é consequência necessária dessa união.
Então COMO EXPLICAR OS RAMOS
INFRUTÍFEROS?
É aqui que a linguagem
pactual se torna fundamental.
A Escritura frequentemente
fala de pessoas que possuem uma relação real com o povo de Deus, participam dos
privilégios da aliança, recebem os sinais da aliança, convivem na comunidade da
aliança, mas não possuem fé salvadora.
EM OUTRAS PALAVRAS, EXISTE
UMA DISTINÇÃO ENTRE PERTENCIMENTO PACTUAL E UNIÃO SALVÍFICA.
Existe uma RELAÇÃO EXTERNA
com a aliança e existe uma RELAÇÃO INTERNA e salvadora com Cristo.
Essa distinção ajuda a
entender não apenas João 15, mas também Judas Iscariotes, Hebreus 6, Hebreus 10
e especialmente 2 Pedro 2.
Pedro fala sobre falsos
mestres que negaram "o Soberano que os resgatou".
À primeira vista, parece que
Pedro está dizendo que Cristo salvou essas pessoas e depois elas perderam a
salvação.
Mas o contexto mostra outra
coisa.
O próprio Pedro descreve
esses homens como fontes sem água, escravos da corrupção e, no final do
capítulo, utiliza uma imagem impressionante.
Ele não diz que uma ovelha
voltou ao lamaçal.
Ele diz que uma porca lavada
voltou ao lamaçal.
A lavagem foi externa.
A natureza permaneceu a
mesma.
Nunca houve regeneração.
Nunca houve transformação
verdadeira.
Então O QUE SIGNIFICA DIZER
QUE FORAM RESGATADOS?
A resposta está na própria
linguagem pactual das Escrituras.
No Antigo Testamento Deus
repetidamente chama Israel de povo resgatado, adquirido e remido.
O problema é que muitos
daqueles que foram chamados de resgatados morreram em incredulidade.
Veja Deuteronômio 32.
Moisés fala de uma geração
perversa e corrupta e, mesmo assim, diz que Deus a adquiriu.
Veja Êxodo 15.
Todo Israel é chamado de povo
salvo e adquirido por Deus.
Veja Deuteronômio 7.
Toda a nação é descrita como
resgatada do Egito.
Mas a maioria daquela geração
pereceu no deserto por causa da incredulidade.
Paulo lembra disso em 1
Coríntios 10.
O autor de Hebreus lembra
disso em Hebreus 3.
Todos passaram pelo mar.
Todos participaram dos
privilégios da aliança.
Mas Deus não se agradou da
maioria deles.
Perceba o padrão.
A BÍBLIA PODE CHAMAR UM POVO
INTEIRO DE RESGATADO SEM ESTAR AFIRMANDO QUE CADA INDIVÍDUO POSSUI SALVAÇÃO
ETERNA.
A linguagem é pactual e
corporativa.
E isso nos leva diretamente a
Romanos 9.
Romanos 9 talvez seja um dos
textos mais importantes sobre esse assunto.
Paulo começa dizendo que aos
israelitas pertencem a adoção, as alianças, as promessas, a glória e o culto.
Eles possuíam privilégios
pactuais reais.
Mas logo em seguida ele faz
uma distinção fundamental:
"Nem todos os de Israel
são israelitas."
Ou seja, existe um Israel
visível e existe o Israel da promessa.
Existe uma comunidade pactual
visível e existe o povo eleito dentro dessa comunidade.
Foi assim com Ismael e
Isaque.
Foi assim com Esaú e Jacó.
Foi assim ao longo de toda a
história bíblica.
Nem todos os que pertencem
externamente ao povo da aliança pertencem internamente ao povo da promessa.
E isso resolve uma série de
dificuldades interpretativas.
Os ramos infrutíferos de João
15.
Os apostatas de Hebreus.
Os falsos mestres de 2 Pedro.
Todos esses textos descrevem
pessoas que participaram verdadeiramente dos privilégios da aliança, mas nunca
tiveram a união vital e salvadora com Cristo.
A conclusão é simples.
A linguagem pactual nos
permite levar a sério todos os textos da Escritura sem criar contradições.
Ela preserva a realidade dos
privilégios da aliança.
Preserva a seriedade das
advertências bíblicas.
E, ao mesmo tempo, preserva a
certeza gloriosa de que aqueles que estão verdadeiramente unidos a Cristo
jamais serão perdidos.
Porque a perseverança não é a
causa da união com Cristo.
Ela é o fruto inevitável
dela.