quarta-feira, 29 de abril de 2026

O PROGRESSO DA REVELAÇÃO

 

Qualquer assunto que propomos tratar acerca de Deus e de sua santa vontade, deve, necessariamente, considerar a doutrina da revelação. Isso porque todo o conhecimento sobre ele só é possível em razão da sua decisão de revelar-se aos seres humanos. Em outros termos, Deus decidiu falar de si mesmo, no tempo e no espaço. Decidiu dar-se a conhecer.

O conteúdo essencial dessa revelação encontra-se nos registros das Sagradas Escrituras. Como afirma a Confissão Belga, “tudo o que o homem deve crer para ser salvo é suficientemente ensinado nelas” (BEEKE; FERGUSON, 2006, p. 14).

Todavia, essa revelação não foi dada de uma só vez, mas de forma progressiva, desenvolvendo-se ao longo da história da redenção.

Em suma, Deus, em sua sabedoria, comunicou seu plano de salvação por etapas sucessivas, partindo de formas mais simples e tipológicas até alcançar sua plena manifestação em Cristo. Nele Deus disse tudo, Nele Deus tudo disse.

Os fatos da história bíblica, quando considerados isoladamente, não se auto interpretam; contudo, quando compreendidos em sua unidade, constituem o meio pelo qual Deus revela progressivamente a si mesmo e o seu reino. À luz da plena revelação em Jesus Cristo, impõe-se a necessidade de permitir que as palavras posteriores de Deus esclareçam o significado das anteriores, sobretudo aquelas que se apresentam de forma menos explícita (GOLDSWORTHY, 2018, p. 66, 128).

Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p. 67–68) afirma que o próprio Deus dispôs e ordenou a revelação de sua vontade nessa direção, sempre em movimento progressivo, convergindo todas as coisas em Jesus Cristo. Assim, tendo-se agora a revelação completa, o passado deve ser interpretado à sua luz. Em suas palavras, “o melhor intérprete do Antigo Testamento é o Espírito Santo falando conosco pelo Novo. Ali temos a mais clara luz do conhecimento da glória de Deus brilhando sobre nós a partir da face de Jesus Cristo” (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p. 68).

Samuel Renihan reforça esse método ao sustentar que o mistério de Cristo não apenas confirma, mas exige tal princípio hermenêutico: aquilo que antes era obscuro e parcialmente revelado torna-se claro no ensino apostólico do Novo Testamento. Portanto, todos quantos desejam compreender a unidade do plano de Deus devem seguir esse mesmo caminho:

 

O mistério de Cristo confirma e exige esse princípio. O que era obscuro e foi parcialmente revelado antes a respeito de Cristo é claramente revelado no ensino dos apóstolos no Novo Testamento. Todos os que desejam entender a unidade do plano de Deus, devem, portanto, seguir o seu método. (RENIHAN, 2021. Não paginado).

 

 

Na mesma linha, Goldsworthy ensina que a teologia não se inicia em Gênesis de forma autônoma, mas em Cristo, que orienta a leitura do Antigo Testamento à luz do evangelho. É o evangelho que revela o alvo e o significado das Escrituras, funcionando como chave interpretativa de toda a revelação (GOLDSWORTHY, 2018, p. 56–58).

Essa progressão, contudo, não implica ruptura ou mudança de essência, mas apenas desenvolvimento e ampliação daquilo que já estava presente, ainda que de modo embrionário, nas revelações anteriores.

Nesse sentido, afirma-se que a revelação é progressiva, mas una. O Novo Testamento, por exemplo, não inaugura uma realidade distinta daquela já anunciada no Antigo Testamento. Antes, revela de forma clara e definitiva aquilo que outrora foi prometido, prefigurado e anunciado por meio de tipos, sombras e profecias. Há, portanto, uma relação de promessa e cumprimento, não de oposição ou substituição.

Essa unidade pode ser observada no próprio testemunho bíblico. As promessas feitas aos patriarcas encontram seu cumprimento em Cristo; as instituições do Antigo Testamento apontam para realidades mais elevadas que se concretizam na Nova Aliança; e o evangelho, longe de ser uma novidade, é apresentado como o desvelamento de um mistério outrora oculto, mas agora plenamente revelado.

A teologia reformada, especialmente conforme sistematizada na Confissão de Fé de Westminster, reconhece essa dinâmica ao afirmar que o pacto da graça foi administrado de diferentes maneiras ao longo do tempo, mas permaneceu o mesmo em substância. Assim, as diversas etapas não constituem alianças distintas em essência, mas diferentes administrações do mesmo pacto redentivo.

Assim, sustenta-se a unidade da Escritura, ao mesmo tempo em que se reconhece a realidade histórica da promessa e do cumprimento. O Antigo Testamento prepara, anuncia e tipifica; o Novo Testamento cumpre, esclarece e consuma. Ambos, porém, participam de um único e coerente plano divino de redenção, centrado na pessoa e na obra de Cristo.

Importa ressaltar que a afirmação da progressividade da revelação não implica, em hipótese alguma, a inaplicabilidade do Antigo Testamento à Igreja. Tal conclusão representaria uma ruptura indevida com a própria unidade das Escrituras e com o testemunho apostólico.

 

A progressividade deve ser compreendida como desenvolvimento histórico da mesma revelação, e não como substituição de uma por outra. O Antigo Testamento permanece plenamente relevante, uma vez que nele estão contidos, ainda que de forma tipológica, os fundamentos do evangelho posteriormente revelado com maior clareza no Novo Testamento.

Nesse sentido, a Igreja não se encontra desvinculada do Antigo Testamento, mas, ao contrário, é a herdeira legítima das promessas nele contidas. As Escrituras veterotestamentárias continuam sendo Palavra de Deus para o seu povo, úteis para ensino, correção e edificação, conforme reiteradamente afirmado no próprio Novo Testamento.

Mesmo a ênfase à diferença entre a lei e o evangelho deve ser feita com cuidado, a fim de não se perder de vista a unidade da palavra de Deus.

Nesse sentido, o comentário de Geoffrey W. Bromiley:

 

[...] tamanha ênfase à diferença entre lei e evangelho [...] perderão a visão mais alta da unidade e propósito da palavra de Deus. [...] Qualquer enfraquecimento da relação próxima do Antigo e do Novo Testamentos acarretará graves consequências. Isso é bem visível na tendência atual de tirar imensas porções da Escritura pelo motivo de serem limitadas pelo tempo quanto à expressão ou modo de pensar. Naturalmente, não disputamos as diferenças que existem entre a antiga e a nova aliança. Os cristãos sempre têm entendido que boa parte do Antigo Testamento, especialmente na legislação da antiga aliança, não mais se aplica diretamente à comunidade cristã ou ao indivíduo crente. Mesmo assim, é necessário muito cuidado ao especificar a diferença, pois o próprio Jesus disse que a lei não seria destruída, e sim, cumprida, e que nem um pingo ou um til deveria ser retirado dela antes de seu cumprimento (Mt 5.17,18; Rm 3.31, etc.). A distinção básica não deve ser considerada como aquela entre dois opostos, nem entre uma dispensação inferior e uma superior que a substitui. Em vez disso, deve ser vista como a distinção entre uma promessa e a redenção que a substitui ou um tipo e a realidade para a qual é adotado. A antiga aliança é a aliança da promessa e a nova aliança é a aliança da promessa cumprida. Fundamentalmente, é o mesmo pacto, assim como o propósito, a palavra e a obra de Deus compõem uma só. O Antigo Testamento é substituído pelo Novo apenas no sentido de que é cumprido no Novo. Os detalhes externos diferem, mas não à custa da base consistente ou da continuidade da ação, mensagem e ordem divinas. Assim sendo, o Antigo Testamento não pode ser entendido corretamente à parte do Novo e, igualmente, o Novo Testamento não pode ser compreendido sem o Antigo. Quanto a isso, a discussão de Calvino sobre a semelhança e a diferença dos Testamentos, nas Institutas II, x-xi, ainda poderá ser proveitosamente consultada (BROMILEY, 2010, p. 27–28).

 

 

A tradição reformada, conforme expressa nos símbolos de Fé de Westminster, reconhece que, embora certas disposições cerimoniais e civis tenham cessado quanto ao seu uso típico, a substância da revelação permanece válida. A lei moral, em especial, continua a obrigar a todos os homens, e os princípios teológicos e pactuais do Antigo Testamento mantêm plena vigência na economia da Nova Aliança.

Nesse sentido ensina, o catecismo maior:

 

31. Com quem foi feito o pacto da graça? O pacto da graça foi feito com Cristo, como o segundo Adão, e nEle, com todos os eleitos, como sua semente. Gal. 3:16; Isa. 53:10-11; e 59:21.

32. Como é manifestada a graça de Deus no segundo pacto? A graça de Deus é manifestada no segundo pacto em Ele livremente prover e oferecer aos pecadores um Mediador e a vida e a salvação por Ele; exigindo a fé como condição de interessá-los nEle, promete e dá o Espírito Santo a todos os seus eleitos, para neles operar essa fé, com todas as mais graças salvadoras, e para os habilitar a praticar toda a santa obediência, como evidência da sinceridade da sua fé e gratidão para com Deus e como o caminho que Deus lhes designou para a salvação. Gen. 3:15: Isa. 4:3-6; João 326, 6:27; Tito 2:5; 1 João 5:11-12; João 3:36, 1:2; Prov. 1:23; Luc. 11:13; 1 Cor. 12:3, 9; Gal. 5:22-23; Eze. 34:27; Tiago 2:18, 12; II Cor. 5:14-15; Ef. 2:10.

33. Foi o pacto da graça sempre administrado de uma só maneira?

O pacto da graça não foi administrado da mesma maneira; mas as suas administrações no Velho Testamento eram diferentes das debaixo do Novo. Cor. 3:6-9; Heb. 8:7-13.

34. Como foi administrado o pacto da graça no Velho Testamento?

O pacto da graça foi administrado no Velho Testamento por promessas, profecias, sacrifícios, pela circuncisão, pela páscoa e por outros símbolos e ordenanças: todos os quais tipificaram. o Cristo, que havia de vir e eram naquele tempo suficientes para edificar os eleitos na fé do Messias prometido, por quem tiveram, ainda nesse tempo, a plena remissão do pecado e a salvação eterna. Rom. 15:8; At. 3:24; Heb. 10:1; Rom. 4:11, 1 Cor. 5:7; Heb. 11:13; Gal. 3:7-9. 14.

35. Como é o pacto da graça administrado no Novo Testamento? No Novo Testamento, quando Cristo, a substância, foi manifestado, o mesmo pacto da graça foi e continua a ser administrado na pregação da palavra na celebração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor; e assim a graça e a salvação são manifestadas em maior plenitude, evidência e eficácia a todas as nações. Luc. 24:47-48; Mat. 28:19-20; 1 Cor. 11:23-25; Rom. 1: 16; 11 Cor. 3:6.

36. Quem é o Mediador do pacto da graça?

O único Mediador do pacto da graça é o Senhor Jesus Cristo, que, sendo o eterno Filho de Deus, da mesma substância e igual ao Pai, no cumprimento do tempo fêz-se homem, e assim foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas perfeitas e distintas e uma só pessoa para sempre. João 14:16; 1 Tim. 2:5; João 1:1 e 10:30; Fil. 2:6; Gal. 4:4; Luc. 1:35; Rom. 9:5; Col. 2:9; Heb. 13:8[1].

 

 

Na mesma linha, afirma a Confissão de Fé:

 

Este pacto no tempo da Lei não foi administrado como no tempo do Evangelho. Sob a Lei foi administrado por promessas, profecias, sacrifícios, pela circuncisão, pelo cordeiro pascoal e outros tipos e ordenanças dadas ao povo judeu, prefigurando, tudo, Cristo que havia de vir; por aquele tempo essas coisas, pela operação do Espírito Santo, foram suficientes e eficazes para instruir e edificar os eleitos na fé do Messias prometido, por quem tinham plena remissão dos pecados e a vida eterna: essa dispensarão chama-se o Velho Testamento.

Sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da palavra e a administração dos sacramentos do batismo e da ceia do Senhor; por estas ordenanças, posto que poucas em número e administradas com maior simplicidade e menor glória externa, o pacto é manifestado com maior plenitude, evidência e eficácia espiritual, a todas as nações, aos judeus bem como aos gentios. É chamado o Novo Testamento. Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações (CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, [s.d.], cap. 7, § 5-6).

 

 

E ainda:

 

Ainda que a obra da redenção não fora realmente realizada por Cristo senão depois de sua encarnação, contudo a virtude, a eficácia e os benefícios dela, em todas as épocas sucessivas desde o princípio do mundo foram comunicados aos eleitos por meio das promessas, tipos e sacrifícios, pelos quais ele devia esmagar a cabeça da serpente, como o cordeiro morto desde o princípio do mundo, sendo ele o mesmo ontem, hoje e para sempre (CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, [s.d.], cap. 8, § 6).

 

 

Logo, a divergência com algumas leituras contemporâneas reside precisamente na ênfase excessiva na descontinuidade extrema, assim tendem a esvaziar o valor normativo do Antigo Testamento para a Igreja, aproximando-se, ainda que inadvertidamente, de uma fragmentação da revelação bíblica. Como se o Novo Testamento consistisse em uma espécie de correção ou atualização do que Deus havia anteriormente revelado, e não em seu cumprimento e consumação escatológica.

A partir do exposto, há que se concluir que a leitura pactual pedobatista das Escrituras evidencia não apenas a progressividade da revelação, mas também a sua unidade substancial, na qual a convergência de todas as promessas em Cristo não elimina as estruturas anteriores, mas as cumpre e amplia.



[1] CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Disponível em: <https://monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm>. Acesso em: 22 abr. 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O BATISMO AINDA FALA

 Muitos cristãos enxergam o batismo como uma lembrança distante. Foi um acontecimento importante, mas ficou no passado. Entretanto, a Escrit...