Qualquer
assunto que propomos tratar acerca de Deus e de sua santa vontade, deve,
necessariamente, considerar a doutrina da revelação. Isso porque todo o
conhecimento sobre ele só é possível em razão da sua decisão de revelar-se aos
seres humanos. Em outros termos, Deus decidiu falar de si mesmo, no tempo e no
espaço. Decidiu dar-se a conhecer.
O conteúdo essencial dessa revelação
encontra-se nos registros das Sagradas Escrituras. Como afirma a Confissão
Belga, “tudo o que o homem deve crer para ser salvo é suficientemente ensinado
nelas” (BEEKE; FERGUSON, 2006, p. 14).
Todavia, essa revelação não foi dada
de uma só vez, mas de forma progressiva, desenvolvendo-se ao longo da história da
redenção.
Em suma, Deus, em sua sabedoria,
comunicou seu plano de salvação por etapas sucessivas, partindo de formas mais
simples e tipológicas até alcançar sua plena manifestação em Cristo. Nele Deus
disse tudo, Nele Deus tudo disse.
Os fatos da história bíblica, quando
considerados isoladamente, não se auto interpretam; contudo, quando
compreendidos em sua unidade, constituem o meio pelo qual Deus revela
progressivamente a si mesmo e o seu reino. À luz da plena revelação em Jesus Cristo,
impõe-se a necessidade de permitir que as palavras posteriores de Deus
esclareçam o significado das anteriores, sobretudo aquelas que se apresentam de
forma menos explícita (GOLDSWORTHY, 2018, p. 66, 128).
Coxe (apud COXE; OWEN, 2021, p.
67–68) afirma que o próprio Deus dispôs e ordenou a revelação de sua vontade
nessa direção, sempre em movimento progressivo, convergindo todas as coisas em
Jesus Cristo. Assim, tendo-se agora a revelação completa, o passado deve ser
interpretado à sua luz. Em suas palavras, “o melhor intérprete do Antigo
Testamento é o Espírito Santo falando conosco pelo Novo. Ali temos a mais clara
luz do conhecimento da glória de Deus brilhando sobre nós a partir da face de
Jesus Cristo” (COXE, apud COXE; OWEN, 2021, p. 68).
Samuel Renihan reforça esse método
ao sustentar que o mistério de Cristo não apenas confirma, mas exige tal
princípio hermenêutico: aquilo que antes era obscuro e parcialmente revelado
torna-se claro no ensino apostólico do Novo Testamento. Portanto, todos quantos
desejam compreender a unidade do plano de Deus devem seguir esse mesmo caminho:
O mistério de Cristo confirma e exige esse princípio. O que
era obscuro e foi parcialmente revelado antes a respeito de Cristo é claramente
revelado no ensino dos apóstolos no Novo Testamento. Todos os que desejam
entender a unidade do plano de Deus, devem, portanto, seguir o seu método. (RENIHAN, 2021. Não paginado).
Na mesma linha, Goldsworthy ensina
que a teologia não se inicia em Gênesis de forma autônoma, mas em Cristo, que
orienta a leitura do Antigo Testamento à luz do evangelho. É o evangelho que
revela o alvo e o significado das Escrituras, funcionando como chave
interpretativa de toda a revelação (GOLDSWORTHY, 2018, p. 56–58).
Essa progressão, contudo, não
implica ruptura ou mudança de essência, mas apenas desenvolvimento e ampliação
daquilo que já estava presente, ainda que de modo embrionário, nas revelações
anteriores.
Nesse sentido, afirma-se que a
revelação é progressiva, mas una. O Novo Testamento, por exemplo, não inaugura
uma realidade distinta daquela já anunciada no Antigo Testamento. Antes, revela
de forma clara e definitiva aquilo que outrora foi prometido, prefigurado e
anunciado por meio de tipos, sombras e profecias. Há, portanto, uma relação de
promessa e cumprimento, não de oposição ou substituição.
Essa unidade pode ser observada no
próprio testemunho bíblico. As promessas feitas aos patriarcas encontram seu
cumprimento em Cristo; as instituições do Antigo Testamento apontam para
realidades mais elevadas que se concretizam na Nova Aliança; e o evangelho,
longe de ser uma novidade, é apresentado como o desvelamento de um mistério
outrora oculto, mas agora plenamente revelado.
A teologia reformada, especialmente
conforme sistematizada na Confissão de Fé de Westminster, reconhece essa
dinâmica ao afirmar que o pacto da graça foi administrado de diferentes
maneiras ao longo do tempo, mas permaneceu o mesmo em substância. Assim, as
diversas etapas não constituem alianças distintas em essência, mas diferentes
administrações do mesmo pacto redentivo.
Assim, sustenta-se a unidade da
Escritura, ao mesmo tempo em que se reconhece a realidade histórica da promessa
e do cumprimento. O Antigo Testamento prepara, anuncia e tipifica; o Novo
Testamento cumpre, esclarece e consuma. Ambos, porém, participam de um único e
coerente plano divino de redenção, centrado na pessoa e na obra de Cristo.
Importa ressaltar que a afirmação da
progressividade da revelação não implica, em hipótese alguma, a
inaplicabilidade do Antigo Testamento à Igreja. Tal conclusão representaria uma
ruptura indevida com a própria unidade das Escrituras e com o testemunho apostólico.
A progressividade deve ser
compreendida como desenvolvimento histórico da mesma revelação, e não como
substituição de uma por outra. O Antigo Testamento permanece plenamente
relevante, uma vez que nele estão contidos, ainda que de forma tipológica, os
fundamentos do evangelho posteriormente revelado com maior clareza no Novo
Testamento.
Nesse sentido, a Igreja não se
encontra desvinculada do Antigo Testamento, mas, ao contrário, é a herdeira
legítima das promessas nele contidas. As Escrituras veterotestamentárias
continuam sendo Palavra de Deus para o seu povo, úteis para ensino, correção e
edificação, conforme reiteradamente afirmado no próprio Novo Testamento.
Mesmo a ênfase à diferença entre a
lei e o evangelho deve ser feita com cuidado, a fim de não se perder de vista a
unidade da palavra de Deus.
Nesse sentido, o comentário de
Geoffrey W. Bromiley:
[...] tamanha ênfase à diferença entre lei e evangelho [...]
perderão a visão mais alta da unidade e propósito da palavra de Deus. [...] Qualquer
enfraquecimento da relação próxima do Antigo e do Novo Testamentos acarretará
graves consequências. Isso é bem visível na tendência atual de tirar imensas
porções da Escritura pelo motivo de serem limitadas pelo tempo quanto à
expressão ou modo de pensar. Naturalmente, não disputamos as diferenças que
existem entre a antiga e a nova aliança. Os cristãos sempre têm entendido que
boa parte do Antigo Testamento, especialmente na legislação da antiga aliança,
não mais se aplica diretamente à comunidade cristã ou ao indivíduo crente.
Mesmo assim, é necessário muito cuidado ao especificar a diferença, pois o
próprio Jesus disse que a lei não seria destruída, e sim, cumprida, e que nem
um pingo ou um til deveria ser retirado dela antes de seu cumprimento (Mt
5.17,18; Rm 3.31, etc.). A distinção básica não deve ser considerada como
aquela entre dois opostos, nem entre uma dispensação inferior e uma superior
que a substitui. Em vez disso, deve ser vista como a distinção entre uma
promessa e a redenção que a substitui ou um tipo e a realidade para a qual é
adotado. A antiga aliança é a aliança da promessa e a nova aliança é a aliança
da promessa cumprida. Fundamentalmente, é o mesmo pacto, assim como o
propósito, a palavra e a obra de Deus compõem uma só. O Antigo Testamento é
substituído pelo Novo apenas no sentido de que é cumprido no Novo. Os detalhes
externos diferem, mas não à custa da base consistente ou da continuidade da ação,
mensagem e ordem divinas. Assim sendo, o Antigo Testamento não pode ser
entendido corretamente à parte do Novo e, igualmente, o Novo Testamento não
pode ser compreendido sem o Antigo. Quanto a isso, a discussão de Calvino sobre
a semelhança e a diferença dos Testamentos, nas Institutas II, x-xi, ainda
poderá ser proveitosamente consultada (BROMILEY, 2010, p. 27–28).
A tradição reformada, conforme
expressa nos símbolos de Fé de Westminster, reconhece que, embora certas
disposições cerimoniais e civis tenham cessado quanto ao seu uso típico, a
substância da revelação permanece válida. A lei moral, em especial, continua a
obrigar a todos os homens, e os princípios teológicos e pactuais do Antigo
Testamento mantêm plena vigência na economia da Nova Aliança.
Nesse sentido ensina, o catecismo
maior:
31. Com quem foi feito o pacto da graça? O pacto da graça
foi feito com Cristo, como o segundo Adão, e nEle, com todos os eleitos, como
sua semente. Gal. 3:16; Isa. 53:10-11; e 59:21.
32. Como é manifestada a graça de Deus no segundo pacto? A
graça de Deus é manifestada no segundo pacto em Ele livremente prover e
oferecer aos pecadores um Mediador e a vida e a salvação por Ele; exigindo a fé
como condição de interessá-los nEle, promete e dá o Espírito Santo a todos os
seus eleitos, para neles operar essa fé, com todas as mais graças salvadoras, e
para os habilitar a praticar toda a santa obediência, como evidência da
sinceridade da sua fé e gratidão para com Deus e como o caminho que Deus lhes
designou para a salvação. Gen. 3:15: Isa. 4:3-6; João 326, 6:27; Tito 2:5; 1
João 5:11-12; João 3:36, 1:2; Prov. 1:23; Luc. 11:13; 1 Cor. 12:3, 9; Gal.
5:22-23; Eze. 34:27; Tiago 2:18, 12; II Cor. 5:14-15; Ef. 2:10.
33. Foi o pacto da graça sempre administrado de uma só
maneira?
O pacto da graça não foi administrado da mesma maneira; mas
as suas administrações no Velho Testamento eram diferentes das debaixo do Novo.
Cor. 3:6-9; Heb. 8:7-13.
34. Como foi administrado o pacto da graça no Velho
Testamento?
O pacto da graça foi administrado no Velho Testamento por
promessas, profecias, sacrifícios, pela circuncisão, pela páscoa e por outros
símbolos e ordenanças: todos os quais tipificaram. o Cristo, que havia de vir e
eram naquele tempo suficientes para edificar os eleitos na fé do Messias
prometido, por quem tiveram, ainda nesse tempo, a plena remissão do pecado e a
salvação eterna. Rom. 15:8; At. 3:24; Heb. 10:1; Rom. 4:11, 1 Cor. 5:7; Heb.
11:13; Gal. 3:7-9. 14.
35. Como é o pacto da graça administrado no Novo Testamento?
No Novo Testamento, quando Cristo, a substância, foi manifestado, o mesmo pacto
da graça foi e continua a ser administrado na pregação da palavra na celebração
dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor; e assim a graça e a salvação
são manifestadas em maior plenitude, evidência e eficácia a todas as nações. Luc.
24:47-48; Mat. 28:19-20; 1 Cor. 11:23-25; Rom. 1: 16; 11 Cor. 3:6.
36. Quem é o Mediador do pacto da graça?
O único Mediador do pacto da graça é o Senhor Jesus Cristo,
que, sendo o eterno Filho de Deus, da mesma substância e igual ao Pai, no
cumprimento do tempo fêz-se homem, e assim foi e continua a ser Deus e homem em
duas naturezas perfeitas e distintas e uma só pessoa para sempre. João 14:16; 1
Tim. 2:5; João 1:1 e 10:30; Fil. 2:6; Gal. 4:4; Luc. 1:35; Rom. 9:5; Col. 2:9;
Heb. 13:8[1].
Na mesma linha, afirma a Confissão
de Fé:
Este pacto no tempo da Lei não foi administrado como no
tempo do Evangelho. Sob a Lei foi administrado por promessas, profecias,
sacrifícios, pela circuncisão, pelo cordeiro pascoal e outros tipos e
ordenanças dadas ao povo judeu, prefigurando, tudo, Cristo que havia de vir;
por aquele tempo essas coisas, pela operação do Espírito Santo, foram
suficientes e eficazes para instruir e edificar os eleitos na fé do Messias
prometido, por quem tinham plena remissão dos pecados e a vida eterna: essa
dispensarão chama-se o Velho Testamento.
Sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a
substância, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da
palavra e a administração dos sacramentos do batismo e da ceia do Senhor; por
estas ordenanças, posto que poucas em número e administradas com maior
simplicidade e menor glória externa, o pacto é manifestado com maior plenitude,
evidência e eficácia espiritual, a todas as nações, aos judeus bem como aos
gentios. É chamado o Novo Testamento. Não há, pois, dois pactos de graça diferentes
em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações (CONFISSÃO DE FÉ DE
WESTMINSTER, [s.d.], cap. 7, § 5-6).
E ainda:
Ainda que a obra da redenção não fora realmente realizada
por Cristo senão depois de sua encarnação, contudo a virtude, a eficácia e os
benefícios dela, em todas as épocas sucessivas desde o princípio do mundo foram
comunicados aos eleitos por meio das promessas, tipos e sacrifícios, pelos
quais ele devia esmagar a cabeça da serpente, como o cordeiro morto desde o
princípio do mundo, sendo ele o mesmo ontem, hoje e para sempre (CONFISSÃO DE
FÉ DE WESTMINSTER, [s.d.], cap. 8, § 6).
Logo, a divergência com algumas
leituras contemporâneas reside precisamente na ênfase excessiva na
descontinuidade extrema, assim tendem a esvaziar o valor normativo do Antigo
Testamento para a Igreja, aproximando-se, ainda que inadvertidamente, de uma
fragmentação da revelação bíblica. Como se o Novo Testamento consistisse em uma
espécie de correção ou atualização do que Deus havia anteriormente revelado, e
não em seu cumprimento e consumação escatológica.
A
partir do exposto, há que se concluir que a leitura pactual pedobatista das
Escrituras evidencia não apenas a progressividade da revelação, mas também a
sua unidade substancial, na qual a convergência de todas as promessas em Cristo
não elimina as estruturas anteriores, mas as cumpre e amplia.
[1]
CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Disponível em: <https://monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm>.
Acesso em: 22 abr. 2026.
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