Batistas[1], presbiterianos e
congregacionais são herdeiros da Reforma Protestante, surgidos no contexto do
puritanismo do século XVII. Embora compartilhem ampla convergência doutrinária,
sempre houve e ainda há divergências relevantes quanto ao batismo, as quais
refletem distintos entendimentos acerca da membresia da Igreja. Presbiterianos
e congregacionais compreendem as alianças do Antigo Testamento como
administrações do pacto da graça, o que repercute diretamente na forma de
conceber a Igreja e a inclusão dos indivíduos no âmbito pactual (DENAULT, 2018,
p. 17, 18, 33–35, 57).
Cumpre
destacar, desde logo, que o presente trabalho se vale de autores provenientes
de distintas tradições confessionais, ou seja, tanto pedobatistas quanto
credobatistas, sendo suas contribuições utilizadas de forma criteriosa, seja
nos pontos de convergência, seja nos pontos de divergência. Tal procedimento
não implica qualquer tentativa de harmonização artificial entre as posições
que, em aspectos relevantes, são de fato inconciliáveis, mas antes reflete uma
tentativa de apresentar honestamente as referidas posições.
Não se
quer com isso afirmar que pretendemos nos esquivar de tomar uma posição em
favor de uma das posições, de maneira honesta, procura-se defender neste
trabalho a posição pedobatista.
Para compreender melhor a distinção no
aliancismo entre as tradições, é útil recorrer à controvérsia histórica travada
por Nehemiah Coxe, figura central do chamado federalismo batista[1] (DENAULT,
2018, p. 49) e Joseph Whiston, defensor do batismo infantil. Coxe, em sua obra
Discourse of the Covenants that God made With Men before the Law (1681),
desenvolve uma argumentação em favor do batismo de crentes, estabelecendo
diálogo direto e crítico com a posição pedobatista sustentada por Whiston.A
discussão gravitava em torno da interpretação de Gênesis 17 e da natureza do
pacto abraâmico (COXE; OWEN, 2021, p. 62–63).
Pascal Denault resume bem a importância do
pensamento teológico de Nehemiah:
Seu tratado [...] traça as diferenças fundamentais entre presbiterianos
e batistas baseado em seus respectivos entendimentos do pacto Abraâmico. [...] O
restante de sua obra dedica-se a mostrar que a Antiga e a Nova Aliança não são
duas administrações de um só e mesmo Pacto, mas duas alianças diferentes. O
federalismo de Coxe é ainda mais importante, pois ele foi o principal artesão
da Segunda Confissão de Fé Londrina, oficialmente adotada pelas igrejas
batistas da Inglaterra em 1689. (DENAULT, 2018, p. 49, 50).
Todavia, a tradição pedobatista sustenta que
essa leitura introduz uma ruptura mais acentuada do que o próprio texto bíblico
permite. A unidade do pacto da graça, ainda que administrada de formas
distintas, preserva uma continuidade essencial que justifica a manutenção do
princípio inclusivo dos filhos dos crentes. A distinção entre sinal e
realidade, longe de enfraquecer essa posição, a fortalece, pois impede qualquer
leitura sacramentalista automática, ao mesmo tempo em que preserva a
objetividade das promessas divinas.
Ademais, embora o desenvolvimento posterior das distinções entre Antiga e Nova Aliança tenha sido amplamente explorado por John Owen[3] em seu comentário de Hebreus (8.6–16), isso não implica ruptura absoluta, mas antes um avanço na clareza e eficácia da administração do mesmo pacto da graça. A Nova Aliança, nesse sentido, não elimina o princípio pactual anterior, mas o eleva e o universaliza.
Observa-se, por fim, que, no contexto contemporâneo, muitos batistas se distanciaram das categorias clássicas da teologia pactual, inclinando-se ao dispensacionalismo. Ainda que haja um renovado interesse pela soteriologia reformada, especialmente no que tange aos chamados cinco pontos do calvinismo, a teologia bíblica e pactual nem sempre tem recebido o mesmo desenvolvimento. E mesmo os que abraçaram o aliancismo de 1689, não abraçaram o paradigma “Um pacto sob duas administrações”.
Diante disso, sustenta-se que a teologia da aliança, quando compreendida em sua forma clássica, não apenas admite, mas fundamenta de maneira consistente a prática do batismo infantil. Longe de ser uma imposição extrabíblica, o pedobatismo decorre de uma leitura orgânica da Escritura, que reconhece a fidelidade de Deus às suas promessas pactuais ao longo das gerações e a inclusão dos filhos dos crentes na esfera visível da aliança.
[1] Referência aos
batistas particulares do século XVII, especialmente aqueles que que
subscreveram a Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689.
[2] Nehemiah Coxe
era um batista particular e filho de pastor da mesma tradição (PORTE JR, 2017,
p.67).
[3] John Owen era pedobatista. A estrutura revelado e
concluído apresentado por ele foi abraçada por Coxe para argumentar em favor do
credobatismo.
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